Dr. Thiago Bernardino de Carvalho
Coordenador Técnico da Pecuária Cepea
O Tour de Confinamento 2025, levantamento da Tortuga em conjunto com o Cepea, evidenciou, mais uma vez, a elevada capacidade de adaptação da pecuária intensiva brasileira às diferentes condições produtivas e mercadológicas encontradas nas diversas regiões do País. As oito etapas realizadas permitiram avaliar a viabilidade econômica dos confinamentos em importantes polos pecuários, considerando tanto a comercialização direta no mercado físico (balcão) quanto a utilização de instrumentos de proteção de preços por meio do mercado futuro.
Os dados de 2025 registraram, em média, 16,31% de retorno para a atividade de confinamento no levantamento realizado, registrando o segundo melhor número do período, ficando atrás apenas do ano de 2020, quando a arroba se valorizou fortemente devido ao boom de vendas para a China e à reversão do ciclo pecuário.

De maneira geral, todos os confinamentos avaliados apresentaram retorno positivo sobre o investimento (ROI), demonstrando apesar da volatilidade observada ao longo do ciclo de produção, a atividade permaneceu economicamente viável nas propriedades participantes. Entretanto, os resultados revelam diferenças importantes dentre as regiões, refletindo fatores como custo de alimentação, desempenho zootécnico, preços de reposição, logística, eficiência operacional e condições locais de comercialização.
A comercialização no mercado físico apresentou os maiores retornos em todas as etapas analisadas. Os resultados indicam que a estratégia de venda no mercado de balcão proporcionou desempenho superior ao obtido com operações travadas no mercado futuro, consequência principalmente da alta observada no preço do boi gordo durante o período de terminação dos animais.

Dentre os confinamentos avaliados, o melhor desempenho econômico foi registrado na unidade de Deodápolis (MS), que alcançou retorno sobre o investimento (ROI) de aproximadamente 26,8% na comercialização em mercado físico. O resultado evidencia a elevada competitividade da região, favorecida por uma combinação de eficiência produtiva, boa gestão dos custos e ambiente comercial favorável durante o período de venda dos animais.
Na sequência destacaram-se os confinamentos de Chapada (RS), com ROI de aproximadamente 21,6%, Ipuaçu (SC), com 20,0%, e Paragominas (PA), que apresentou retorno próximo de 19,3%. Esses resultados demonstram que sistemas intensivos bem conduzidos conseguem apresentar elevada rentabilidade mesmo em regiões com estruturas produtivas bastante distintas.
A unidade de Riachão do Jacuípe (BA) também apresentou desempenho expressivo, registrando ROI de aproximadamente 17,2%, seguida por Rio Verde (GO), com retorno de 12,8%. Já os menores resultados foram observados em Itaí (SP), com aproximadamente 7,0%, e Gurupi (TO), cujo ROI ficou em torno de 5,7%, embora ainda permanecendo em patamar positivo.

Quando considerada a estratégia de comercialização via mercado futuro, observa-se redução do retorno econômico em todas as propriedades avaliadas. Esse comportamento era esperado, uma vez que operações de hedge têm como principal objetivo reduzir a exposição ao risco de preços e garantir previsibilidade da margem, não necessariamente maximizar o lucro final.
Mesmo com rentabilidade inferior ao mercado físico, os resultados do mercado futuro permaneceram positivos em todas as etapas, variando entre aproximadamente 1,5%, observado em Paragominas (PA), e 16,9%, registrados em Deodápolis (MS). Esses números demonstram que a utilização de instrumentos de proteção de preços contribuiu para preservar margens positivas, reduzindo a vulnerabilidade dos confinadores frente às oscilações do mercado pecuário.
Outro aspecto relevante evidenciado pelo Tour foi a importância crescente da gestão econômica dentro dos sistemas de confinamento. Diferenças relativamente pequenas nos custos de alimentação, na conversão alimentar, no ganho médio diário e/ou na eficiência operacional podem resultar em diferenças significativas na rentabilidade final do empreendimento.
A avaliação conjunta das receitas e dos custos evidencia que a rentabilidade dos confinamentos em 2025 foi determinada pela interação entre três fatores principais: custo de reposição, custo alimentar e eficiência na comercialização dos animais terminados. Embora todos os confinamentos tenham apresentado retorno positivo, observam-se diferenças significativas na estrutura de custos e na capacidade de geração de receita entre as propriedades avaliadas.
Receitas: valorização da arroba impulsionou os resultados
O preço de comercialização do boi gordo apresentou elevada variação dentre as regiões, refletindo diferenças de mercado, padrão dos animais e momento da venda. Os maiores preços foram observados em Paragominas (PA), com R$ 369,05/@, seguido por Chapada (RS), com R$ 353,15/@, e Deodápolis (MS), com R$ 338,00/@. Em contrapartida, o menor preço ocorreu em Gurupi (TO), onde a arroba foi comercializada por aproximadamente R$ 300,00.

Entretanto, o maior preço de venda não significou, necessariamente, maior rentabilidade. O confinamento de Paragominas, por exemplo, comercializou a arroba mais valorizada do Tour, mas apresentou ROI inferior ao de Deodápolis. Isso demonstra que o resultado econômico depende da relação entre receita e estrutura de custos, e não apenas do valor recebido pela arroba.
Outro indicador importante é o preço de equilíbrio, que representa a arroba mínima necessária para cobrir todos os custos da operação. Em média, os confinamentos necessitariam vender seus animais por aproximadamente R$ 283/@ para atingir o ponto de equilíbrio. O menor ponto de equilíbrio foi observado em Deodápolis (MS), com R$ 262,06/@, evidenciando uma estrutura produtiva mais eficiente. Já São Paulo e Pará apresentaram os maiores pontos de equilíbrio, superiores a R$ 300/@, consequência de custos operacionais mais elevados.
A eficiência produtiva também contribuiu para os resultados econômicos. O rendimento médio de carcaça foi de aproximadamente 55,4%, variando de 52,5% a 57,4%. O melhor desempenho foi registrado novamente em Deodápolis (MS), enquanto o menor rendimento ocorreu no confinamento do Rio Grande do Sul.
O ganho médio diário (GMD) apresentou média de 1,56 kg por animal, com destaque para Gurupi (TO), que alcançou aproximadamente 1,67 kg/dia, seguido por Rio Verde (GO) e Deodápolis (MS). Apesar do excelente desempenho zootécnico em Tocantins, a menor valorização da arroba limitou a rentabilidade da operação, evidenciando que ganhos produtivos precisam ser acompanhados por condições favoráveis de comercialização.
O período médio de confinamento foi de aproximadamente 99 dias, variando entre 82 dias, no Rio Grande do Sul, e 113 dias, em Goiás. Ciclos mais curtos reduzem custos de alimentação e despesas operacionais, enquanto períodos mais longos exigem maior eficiência para compensar o aumento dos custos variáveis.
CUSTOS: reposição continua sendo o principal componente
A análise dos custos confirma que a compra do boi magro permanece como o principal componente do custo operacional efetivo (COE) dos confinamentos brasileiros.
Em média, a reposição representou aproximadamente 74,1% do COE, enquanto a alimentação respondeu por 25,9% dos custos operacionais. Esses números reforçam que pequenas oscilações no preço do animal de reposição possuem impacto muito superior ao observado em variações semelhantes nos custos da dieta.
A participação da reposição variou entre 69,1%, em Deodápolis (MS), e 79,3%, em Gurupi (TO). Quanto menor essa participação, maior tende a ser a margem disponível para remuneração do produtor, desde que o desempenho produtivo seja mantido.
O custo médio do boi magro foi de aproximadamente R$ 4.304 por cabeça, com forte variação regional. O menor valor foi registrado em Deodápolis (MS), cerca de R$ 3.590/cabeça, enquanto Paragominas (PA) e São Paulo apresentaram custos superiores a R$ 4.680/cabeça.
Quando analisado o preço da arroba do boi magro, observa-se amplitude entre aproximadamente R$ 290/@, na Bahia, e R$ 342/@, em São Paulo. A aquisição de animais de reposição em condições mais favoráveis constituiu um dos principais fatores responsáveis pelas maiores margens econômicas observadas no Tour.
Alimentação: eficiência mais importante que menor custo
O custo médio da dieta foi de aproximadamente R$ 1.511 por animal, correspondendo a cerca de R$ 15,32 por dia de confinamento.
Os maiores custos diários foram observados em Paragominas (PA) (R$ 18,02/dia) e Riachão do Jacuípe (BA) (R$ 17,05/dia), enquanto os menores ocorreram em Santa Catarina (R$ 12,49/dia) e Tocantins (R$ 13,55/dia).

Entretanto, assim como ocorreu com as receitas, menor custo alimentar não significou necessariamente maior rentabilidade. O desempenho econômico depende da capacidade de a dieta converter alimento em ganho de peso, reduzir dias de confinamento e produzir carcaças com maior rendimento.
Quando excluídos os custos operacionais associados ao trato, a dieta propriamente dita representou aproximadamente 22,6% do COE, indicando que melhorias em eficiência alimentar podem produzir impactos relevantes sobre a margem econômica da atividade.
O caso de Deodápolis (MS): referência em eficiência econômica
Os indicadores mostram que o confinamento de Deodápolis (MS) apresentou a combinação mais equilibrada entre custos e receitas.
A propriedade reuniu menor custo de aquisição do boi magro, menor ponto de equilíbrio econômico, maior rendimento de carcaça, elevado ganho médio diário, preço de venda acima da média nacional e menor participação da reposição no custo operacional.
Essa combinação permitiu alcançar o maior retorno sobre o investimento do Tour (26,8%), demonstrando que a eficiência econômica resulta da integração entre desempenho zootécnico, gestão de custos e estratégia comercial.
Sucesso econômico depende de um conjunto de fatores!
Os resultados também reforçam que o sucesso econômico do confinamento depende de um conjunto de fatores integrados. A compra adequada da reposição, o planejamento nutricional, a eficiência zootécnica, o controle rigoroso dos custos operacionais e a definição da estratégia de comercialização exercem influência direta sobre o retorno obtido pelo produtor.
Do ponto de vista estratégico, o estudo demonstra que decisões relacionadas à comercialização devem considerar não apenas a expectativa de preços, mas também o perfil de risco de cada empresa. Em momentos de elevada volatilidade, operações de hedge podem reduzir a exposição financeira e proporcionar maior estabilidade de resultados, enquanto em cenários de valorização do mercado físico a comercialização direta tende a capturar maior rentabilidade.
Em síntese, o Tour de Confinamento 2025 confirma que a pecuária intensiva brasileira continua apresentando elevado potencial de geração de resultados quando conduzida com planejamento técnico e gestão econômica eficiente. Os diferentes desempenhos observados entre as regiões evidenciam que a competitividade do co nfinamento não depende exclusivamente da localização geográfica, mas sobretudo da eficiência na administração dos custos, do desempenho produtivo dos animais e da qualidade das decisões gerenciais ao longo de todo o ciclo de produção.


