Suplementação de bovinos de corte no período da seca: foco em desempenho, redução do ciclo produtivo e eficiência

Felipe Coelho
Consultor Sênior Cadeia da Carne
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Grande parte da produção brasileira de bovinos de corte se baseia em pastagens tropicais, sujeitas à sazonalidade climática. Na seca, menor crescimento vegetal, queda da proteína e maior participação de fibra reduzem a qualidade da dieta e podem limitar a atividade ruminal e o desempenho.

A suplementação deve partir da identificação das limitações da dieta basal e de uma meta de desempenho. Moretti (2015) ressalta que primeiro se corrigem os fatores limitantes da forragem; depois, nutrientes adicionais podem ser utilizados para atender às exigências associadas à meta de ganho.

Além de evitar perda de peso, a suplementação pode acelerar a recria e reduzir o tempo até a terminação. Beserra (2020) relaciona a suplementação à menor permanência do animal na propriedade e ao maior giro de capital. Assim, nutrição, desempenho, tempo de produção e retorno econômico devem ser avaliados conjuntamente.

A seca e as limitações da dieta basal
Na seca, a limitação não decorre apenas da quantidade de pasto. Mesmo com massa suficiente, a baixa qualidade pode restringir o desempenho. A deficiência de nitrogênio reduz a atividade microbiana e a degradação da fibra; por isso, suplementos proteicos podem melhorar o aproveitamento da forragem quando há substrato disponível.

Porém, quando a massa de forragem é insuficiente, corrigir apenas proteína não resolve o problema. Beserra (2020) relata baixo desempenho com suplemento mineral contendo ureia quando a oferta de forragem foi limitante. Portanto, suplementação não substitui planejamento forrageiro, ajuste de lotação, diferimento, volumoso ou sistemas mais intensivos.

Estratégias de suplementação e níveis de intensificação
A estratégia deve refletir a dieta basal e exigências do animal. Beserra (2020) avaliou suplemento mineral proteico a 0,1% do peso corporal (PR1) e proteico-energético a 0,3% (PE3), entre outros níveis. Para um bovino de 300 kg, equivalem a cerca de 300 e 900 g/dia, respectivamente; são exemplos de intensificação, não recomendações fixas. Moretti (2015) relata, na seca, GMD de 0,501 kg/dia com suplemento proteico-energético e 0,368 kg/dia com suplemento proteico, mostrando que a resposta depende do plano nutricional e da dieta basal.

Acelerar o ganho na seca para encurtar a engorda
A suplementação da seca foi tradicionalmente associada à manutenção do peso. Em sistemas intensificados, porém, pode transformar a estação seca em período efetivo de crescimento. A velocidade de ganho determina o tempo necessário para acumular peso e arrobas. Por isso, maior GMD na recria pode reduzir o peso ainda a ser produzido posteriormente, antecipar a entrada na terminação e encurtar o ciclo produtivo.

Moretti (2015) apresenta exemplo em que diferentes estratégias nutricionais levaram animais à terminação com aproximadamente 404kg, 393kg e 370 kg. Embora o ganho no confinamento tenha sido semelhante, o maior peso inicial refletiu no tempo de confinamento. Assim, o ganho produzido na recria deve ser valorizado também pelos dias de engorda que pode retirar do sistema. Diferenças de peso da ordem de 34 kg/cabeça, ao final do período de recria, representam números extremamente relevantes em qualquer sistema de produção pecuário, até porque, normalmente, a fase de recria é aquela onde há grande potencial de agregação de margens financeiras ao negócio.

Continuidade nutricional e exigência de mantença
O efeito do suplemento não termina na fase em que é fornecido. Moretti (2015) discute que a exigência de mantença acompanha a atividade metabólica e o aporte de nutrientes. Animais em maior plano nutricional podem elevar sua capacidade metabólica e o gasto de mantença; se a fase seguinte oferece menor ou igual disponibilidade de nutrientes, sobra menos energia para o crescimento.

No experimento, animais anteriormente submetidos ao suplemento proteico-energético apresentaram, na fase seguinte, GMD de 0,92 kg/dia, contra 1,02 kg/dia dos que haviam recebido suplemento mineral. Mesmo assim, 78,3% da vantagem de peso construída anteriormente permaneceu ao final da terminação. Moretti (2015) interpreta a redução posterior como ajuste metabólico negativo quando o aporte subsequente não acompanha a condição metabólica alcançada.

Após realimentação, essa diferença pode favorecer temporariamente o crescimento, mas a resposta varia com idade, intensidade e duração da restrição. Assim, intensificar a seca exige continuidade nutricional e uma curva de crescimento coerente.

Rip e sequestro como estratégias de aceleração
Em metas mais elevadas, a Recria Intensiva a Pasto (RIP) aumenta a participação do suplemento, mantendo o pasto como componente relevante da dieta. O objetivo é elevar o GMD e antecipar a terminação.

Quando falta forragem ou se deseja maior controle da dieta, o sequestro (recria confinada) é uma alternativa. Alcançar performance de GMD próxima a 1 kg/cabeça/dia, já é realidade em diversas fazendas.

Suplementação a 0,1% e 0,3% do peso corporal, RIP e sequestro representam diferentes graus de intensificação, definidos pela meta de ganho, base forrageira e viabilidade econômica.

O ganho de peso precisa pagar a suplementação
Maior GMD não significa necessariamente maior rentabilidade: à medida que aumenta o suplemento, cresce o investimento por animal e o ganho adicional precisa pagar esse custo.

Beserra (2020) encontrou associação entre GMD na recria e índice de lucratividade (r² = 0,755). A seca representou, em média, 26% do ganho da recria e 36% do custo alimentar. Logo, maior investimento pode ser vantajoso quando a resposta em ganho compensa o custo e reduz o tempo de produção.

Avaliar apenas R$/cabeça/dia pode ser enganoso. A análise deve integrar custo da alimentação, ganho produzido e tempo para atingir o objetivo: uma estratégia mais cara por dia pode ser superior se reduzir o custo da arroba e antecipar o abate.

Planejamento da suplementação
A decisão deve começar pelo diagnóstico do pasto, categoria, peso inicial, peso-alvo e tempo disponível, definindo o GMD necessário.

A sequência prática é: diagnóstico do pasto → peso atual → peso-alvo → GMD necessário → limitação nutricional → estratégia → custo da arroba e tempo de produção.

Quando a seca for intensificada, o plano da fase seguinte deve ser definido simultaneamente para preservar a vantagem de peso construída.

Conclusão
A suplementação na seca deve ser tratada como ferramenta de gestão do ciclo produtivo. Com forragem suficiente, a proteína pode melhorar o aproveitamento do pasto; metas superiores podem justificar estratégias proteico-energéticas, RIP ou sequestro.

Entretanto, a intensificação precisa de continuidade: elevar fortemente o aporte em uma fase e reduzi-lo na seguinte pode aumentar proporcionalmente o gasto de mantença e limitar a energia disponível para o crescimento. A melhor estratégia é a que constrói uma curva de crescimento coerente e combina custo da arroba, GMD, preservação da vantagem de peso e tempo até o abate.

REFERÊNCIAS
BESERRA, Valquiria de Alencar. Análise econômico-financeira de estratégias de suplementação para bovinos de corte recriados em pastejo. 2020. 72 p. Tese (Doutorado em Zootecnia) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal, 2020.

MORETTI, Matheus Henrique. Estratégias alimentares para a recria e terminação de tourinhos Nelore. 2015. 107 f. Tese (Doutorado em Zootecnia) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal, 2015.

RESENDE, Flávio Dutra de. Recria intensiva a pasto – RIP e recria confinada. Colina: Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios – APTA, 2026. Material técnico de apresentação.

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