Roberto Perosa: “O Brasil no centro do jogo”

Com presença global consolidada, a carne bovina brasileira avança em valor, enquanto ajusta rotas diante das incertezas internacionais

Mylene Abud

O Brasil segue acumulando recordes nas exportações de carne bovina. Mas também enfrenta um cenário internacional mais instável, marcado por tensões geopolíticas e por mudanças nas regras de seu principal parceiro comercial, a China. Para o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), Roberto Perosa, esses fatores exigem atenção, mas não comprometem a posição do país. “O mundo vive um déficit de produção de carne bovina, e isso abre espaço para o Brasil seguir ocupando mercados com responsabilidade e competitividade”, afirma.

Com trânsito entre os setores público e privado, incluindo passagem pelo Ministério da Agricultura – onde foi Secretário de Comércio e Relações Internacionais e, por um período, atuou como Ministro da Agricultura – , Perosa avalia o momento atual do setor, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia e o risco do excesso de oferta diante das cotas impostas pela China. “O mercado interno segue sendo o principal destino da carne bovina brasileira, com cerca de 70% da produção ficando no país. O equilíbrio passa justamente por preservar esse mercado interno, ampliar destinos externos e evitar desorganização no fluxo exportador”, resume na entrevista que você acompanha a seguir.

Noticiário Tortuga – O Brasil vem batendo recordes de exportação de carne bovina. Quais são hoje os principais diferenciais competitivos do país no cenário global?
Roberto Perosa
– O Brasil reúne hoje um conjunto muito sólido de diferenciais. Temos escala, oferta, capilaridade comercial e capacidade de atender perfis muito distintos de mercado. Em 2025, exportamos para 177 países, o que mostra a força e a diversificação da nossa presença internacional. Além disso, não estamos apenas exportando mais volume, estamos agregando valor à carne bovina brasileira. O crescimento do faturamento foi proporcionalmente maior do que o do volume, com aumento também no preço médio praticado, o que demonstra reconhecimento do produto brasileiro no mercado internacional.

Noticiário Tortuga – Quais as maiores vantagens competitivas dos pecuaristas brasileiros, que sustentam a liderança do país nas exportações de carne bovina? E os principais desafios?
Roberto Perosa
– A principal vantagem competitiva do pecuarista brasileiro hoje é a produtividade com evolução tecnológica. A pecuária brasileira avançou muito em genética, manejo, confinamento, Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e eficiência produtiva. Isso permitiu o rejuvenescimento do plantel, o abate mais eficiente e maior capacidade de resposta ao mercado. Ao mesmo tempo, o setor enfrenta desafios importantes, como questões geopolíticas, tarifas, cotas, acesso a mercados, logística e burocracia. Não depende só da nossa produção. Por isso, o trabalho precisa ser permanente tanto dentro da porteira quanto na abertura e consolidação de mercados.

Noticiário Tortuga – Diante do cenário internacional instável, qual a avaliação da ABIEC sobre os possíveis impactos da escalada de tensões envolvendo EUA, Israel e Irã no comércio global de carne bovina?
Roberto Perosa
– Toda instabilidade geopolítica gera atenção e exige cautela, porque pode afetar fluxo comercial, custos, fretes, seguros e previsibilidade dos negócios. Mas a visão da ABIEC é que o Brasil está bem posicionado para enfrentar esse ambiente justamente pela sua capilaridade e pela relevância que conquistou como maior exportador mundial. O mundo vive um déficit de produção de carne bovina, e isso abre espaço para o Brasil seguir ocupando mercados com responsabilidade e competitividade.

Noticiário Tortuga – O Oriente Médio não é apenas um destino tradicional para a carne brasileira, mas também um centro estratégico para exportações para o Sudeste Asiático e a Ásia. Caso o conflito se estenda, quais os principais riscos e alternativas para o Brasil?
Roberto Perosa
– O risco maior, em um cenário de prolongamento do conflito, está na logística e no encarecimento das operações, com possíveis impactos em rotas, prazos e custos. Mas o Brasil tem como vantagem uma base ampla de destinos e capacidade de redirecionamento comercial. O setor vem trabalhando fortemente na intensificação de mercados já existentes e na abertura de novos destinos, especialmente na Ásia, no Sudeste Asiático e em outras regiões com demanda crescente por proteína.

Noticiário Tortuga – A China segue como principal destino da carne bovina brasileira. Como o setor está lidando com as novas cotas impostas pelo país?
Roberto Perosa
– A China definiu um novo limite de importação por meio de salvaguarda, e o Brasil vai respeitar essa decisão. O ponto central agora é construir, junto ao governo federal, mecanismos que tragam estabilidade ao setor e evitem desequilíbrios ao longo do ano. Ainda não há definição sobre cotas por empresa, e várias alternativas estão sendo discutidas. A preocupação da ABIEC é clara: evitar uma corrida no primeiro semestre e um problema maior no segundo. A ideia é trabalhar por uma regulação equilibrada, com previsibilidade para a indústria e para toda a cadeia.

Noticiário Tortuga – Há risco de excesso de oferta no Brasil? Como equilibrar o mercado interno e as exportações?
Roberto Perosa –
Haverá impacto, sem dúvida, porque a redução do volume para a China é relevante. Mas a ABIEC entende que o Brasil tem condições de absorver parte disso com diversificação de mercados, intensificação comercial e boa gestão da oferta. Além disso, o mercado interno segue sendo o principal destino da carne bovina brasileira, com cerca de 70% da produção ficando no país. O equilíbrio passa justamente por preservar esse mercado interno, ampliar destinos externos e evitar desorganização no fluxo exportador.

Noticiário Tortuga – O chamado “Boi China” ainda é uma estratégia sustentável em médio prazo?
Roberto Perosa
– A exportação para a China foi extremamente importante para a modernização da pecuária brasileira. Ela ajudou a acelerar investimentos em tecnologia, produtividade, confinamento e ganho de eficiência no campo. Agora, o momento mostra que o setor não pode depender de um único destino. O “Boi China” continua sendo relevante, mas dentro de uma estratégia mais ampla, com mais mercados, mais capilaridade e mais valor agregado. O caminho é diversificar sem perder competitividade.

Noticiário Tortuga – O acordo entre Mercosul e União Europeia pode representar uma mudança relevante para o setor? Para onde o Brasil ainda pode avançar na abertura de mercados e diversificação de destinos?
Roberto Perosa –
O acordo é importante e positivo, principalmente por ampliar oportunidades e reduzir tarifas em parte dos embarques. Mas é preciso ter os pés no chão. Para a carne bovina, o impacto tende a ser mais relevante em valor do que em volume, já que a Europa compra cortes de maior valor agregado, e o crescimento estimado é moderado, entre 5% e 7% ao ano. O grande foco de expansão do Brasil continua sendo Ásia, Sudeste Asiático e na América. Entre os mercados com maior potencial estão as possíveis aberturas de Japão, Coreia do Sul e Turquia, além dos mercados recentemente abertos, como Vietnã e Indonésia, e a intensificação de destinos já consolidados, como Filipinas e outros mercados asiáticos.

Noticiário Tortuga – Para fechar, em um cenário de demanda crescente por proteína, qual é o papel da tecnologia e da nutrição animal para aumentar a produtividade de forma sustentável?
Roberto Perosa
– Esse papel é central e estruturante para o avanço da pecuária brasileira. O aumento de produtividade observado nos últimos anos está diretamente ligado à intensificação tecnológica dos sistemas de produção, com uso de melhoramento genético, IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo), ILPF (Integração Lavoura-Pecuária- Floresta), manejo nutricional mais eficiente e expansão dos sistemas de confinamento e semiconfinamento. Essas ferramentas permitem maior ganho de peso por animal, redução do ciclo produtivo e melhor conversão alimentar, elevando a produção por área e aumentando a eficiência do uso de recursos naturais.

Ao mesmo tempo, há um avanço consistente em governança, rastreabilidade e sustentabilidade, com instrumentos como o PENIB (Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos) e a plataforma AgroBrasil + Sustentável, que ampliam transparência e conformidade com exigências internacionais. Além disso, estudos técnicos conduzidos pela ABIEC em parceria com a FGV Agro indicam que, com a intensificação produtiva e boas práticas, a pecuária brasileira tem potencial de reduzir significativamente suas emissões até 2050. Ou seja, o aumento de produtividade está diretamente associado à redução da intensidade de emissões, consolidando um
modelo de produção mais eficiente e sustentável.

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