Quando os planos de Deus são melhores que os seus

Vitória Mesquita
Analista de Pecuária de Precisão da dsm-firmenich
linkedin.com/in/vitoriamesquita

Ana Paula dos Santos Silva, é filha de uma professora e de um açougueiro. Seu pai deixou o varejo e começou a produzir carne, inicialmente em pequenos arrendamentos na região de São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Com muito trabalho, a vida da família foi melhorando e, aos poucos, os arrendamentos deram lugar a unidades próprias. Por gostar de acompanhar o pai no campo, Ana Paula escolheu a Zootecnia como profissão. Aos 17 anos, ingressou na USP e se deparou com um mundo completamente novo. O início foi difícil, mas foi justamente ali que aconteceu uma das maiores transformações de sua vida. Boas amizades a fizeram perceber a importância de falar inglês fluentemente. Então, tomou uma decisão ousada: trancou o terceiro ano da faculdade e foi para o Canadá estudar o idioma. Ao retornar à USP, com dois diplomas de proficiência, novas oportunidades começaram a surgir. Conquistou bolsas de estudo, passou pela Texas A&M University e pela West Texas A&M University. Fez o último ano da graduação no Brasil e, depois, retornou aos Estados Unidos para realizar seu estágio final em um grande confinamento no Texas. Depois de formada, vieram alguns “nãos”. Não para o mestrado na ESALQ.Não para uma vaga de emprego dos sonhos em uma grande empresa, para a qual ela tinha certeza de estar preparada. Os “nãos” doeram. Mas, muitas vezes, quando uma porta se fecha, outro caminho se abre. Ana Paula decidiu voltar para a USP, em Pirassununga, para fazer o mestrado e, durante esse período, realizou também um mestrado sanduíche na Austrália.

O sonho de Ana Paula era o mundo. Vieram congressos na China, em Cuba e muitos países visitados. Seu plano parecia cada vez mais claro: construir uma carreira que a levasse para longe. Até que seu pai pediu ajuda.A sociedade da família na fazenda passaria por uma separação e ele precisava dela. Ana Paula terminou o mestrado e decidiu voltar para ajudá-lo. E foi aí que o caos começou.

Deixar o mundo para encarar a rotina da fazenda foi muito mais difícil do que ela imaginava. Vieram as brigas constantes, os conflitos de geração e uma enorme frustração. Ana Paula conseguiu um emprego CLT e permaneceu por quatro anos tentando conciliar o trabalho fora com a fazenda. Mas, mais do que conciliar dois trabalhos, precisava aprender a conciliar dois papéis muito mais difíceis: ser filha e ser funcionária. “Eu pensei em desistir inúmeras vezes”, conta Ana Paula. Foi muito difícil para ela e o pai encontrarem uma forma de trabalhar juntos. De um lado, uma jovem cheia de ideias e querendo modernizar a fazenda. Do outro, um homem que havia construído tudo com muito trabalho e que ainda não confiava nas mudanças propostas pela filha. Foram muitas brigas, discussões e até dias sem conversarem. Ana Paula queria conquistar o respeito e a confiança do pai pela força. Até que entendeu que precisaria mudar a estratégia. Percebeu que não adiantava querer transformar tudo de uma vez. Precisava começar aos poucos. E, principalmente, precisava encontrar sua própria forma de trabalhar e liderar, em vez de tentar ser uma cópia do pai. Porque tentar ser exatamente como alguém que você admira não fará você se tornar aquela pessoa. Você pode admirar sua determinação, sua disciplina e sua garra. Mas precisa encontrar o seu próprio jeito de fazer as coisas.

Ela começou pelo básico. Implantou uniformes para a equipe, estabeleceu a coleta de lixo, organizou setores, o quarto de sela, a área de defensivos e outros espaços da propriedade. A mensagem era simples: ela não estava ali para dizer que tudo o que havia sido feito estava errado. Estava ali para mostrar que algumas coisas poderiam ser melhoradas. Ao mesmo tempo, começou a estruturar a equipe e a liberar o pai para fazer aquilo que ele sabia fazer melhor: comprar e vender boi. Ana Paula assumiu o armazém e passou a atuar de forma cada vez mais presente na gestão estratégica do grupo. Foi conquistando a confiança do pai e da equipe primeiro no básico. Só depois vieram os projetos que exigiam aportes financeiros maiores, como a implantação da usina solar, o projeto de compostagem e a ampliação do armazém.

A relação de trabalho entre pai e filha também foi mudando. O que antes era marcado por disputas e resistência passou a dar espaço para confiança, divisão de responsabilidades e complementaridade. O trabalho em família pode ser extremamente difícil. Existe história, afeto, expectativa, diferença de geração e, muitas vezes, a dificuldade de separar a relação familiar da profissional. Mas, quando essa engrenagem finalmente começa a rodar da maneira certa, existe uma força difícil de reproduzir.

São pessoas do mesmo sangue, carregando a mesma história e trabalhando para construir o mesmo futuro. Ana Paula imaginou que seu caminho seria o mundo. E, de certa forma, foi. Ela estudou fora, conheceu países, viveu experiências que transformaram sua visão e trouxe cada uma delas de volta para a fazenda.

Talvez o plano nunca tenha sido fazê-la escolher entre o mundo e a Fazenda Cigana. Talvez fosse prepará-la no mundo para aquilo que ela construiria dentro de casa. Porque podemos traçar a rota, planejar cada etapa e imaginar exatamente aonde queremos chegar. Mas o destino final nem sempre está nas nossas mãos. E, algumas vezes, os planos de Deus são melhores que os nossos.

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