Mylene Abud
A afirmação é da zootecnista e professora de Forragicultura e Pastagens da Universidade Federal de São João Del Rey (MG), Janaína Martuscello, uma das maiores autoridades sobre o assunto no país. Segundo ela, mesmo que sejam plantas de baixa exigência e fertilidade, o capim também precisa de solo corrigido e de adubação. “É fundamental que a gente entenda que o pasto nada mais é do que uma lavoura de capim, mas que a nossa “colhedora” tem rabo e focinho. E nós precisamos dominar o manejo para colher bem essa lavoura”, afirma.
Uma das idealizadoras do Capim Day, importante evento de pastagens que acontece três vezes por ano em várias localidades do Brasil, Janaína explica que quando solo, forrageira, manejo e nutrição trabalham juntos, o produtor aumenta a produtividade, reduz custos por arroba produzida e torna a fazenda mais sustentável. “Quando a gente consegue fazer bons casamentos, como, por exemplo, pastos bem manejados e bons suprimentos, a gente consegue acelerar muito a pecuária, diminuir o tempo que esses animais estão ali na fazenda e, consequentemente, ter maior rentabilidade”, ensina a professora na entrevista que você confere a seguir.
Noticiário Tortuga – O Brasil é um país de pecuária a pasto. Por que ele deve ser tratado como uma lavoura?
Janaína Martuscello – O pasto deve ser tratado como lavoura porque nós temos uma grande extensão territorial de pastagens no Brasil. É a maior área de pastagens no mundo e grande parte dessas áreas produzem abaixo do que deveriam produzir. A partir do momento em que o pecuarista entender que a forragem deve ser tratada como uma lavoura como outra qualquer, nós vamos ter uma melhoria significativa na produtividade. Capim, embora sejam plantas de baixa exigência e fertilidade, também precisa que o solo seja corrigido, precisa de adubação para que tenha boa produtividade. Então é fundamental que a gente entenda que o pasto nada mais é do que uma lavoura de capim, mas que a nossa “colhedora” tem rabo e focinho. Nós precisamos também dominar o manejo para colher bem essa lavoura.
Noticiário Tortuga – Quando falamos em formar uma boa pastagem, qual a principal dica? E quais são os maiores erros que o produtor comete?
Janaína Martuscello – Em relação à formação de pastagens, nós precisamos ainda avançar. Embora as tecnologias já estejam muito presentes e dominadas, grande parte dos pecuaristas erra no momento da formação das pastagens. Para ser bem feita, uma formação de pastagens precisa passar por todas as etapas. E a primeira delas é a análise de solo para que a gente consiga saber quais são as necessidades que a planta que a gente escolher vai ter, para que ela possa expressar o seu potencial genético. A partir da análise do solo, a calagem é fundamental para corrigir essa acidez, porque os solos no Brasil geralmente são ácidos e com baixos teores de cálcio, e a calagem também neutraliza o alumínio.
É importante que o pecuarista escolha uma planta forrageira adaptada ao seu clima, a sua região, a sua topografia e, também, à habilidade de manejo e aos objetivos do sistema. A adubação fosfatada, a escolha de semente de qualidade. Mas o mais importante na formação de pasto, que é muito negligenciado, é o primeiro pastejo, o pessoal tem o hábito de deixar o pasto sementear antes do primeiro pastejo. Isso não deve ser feito sob pena de perder qualidade da pastagem, perder capacidade de perfilhamento. Porque, quando você deixa o pasto sementeado, ele fica muito alto. E ele não deixa penetrar a luz e fazer com que haja, então, o surgimento de novos perfilhos que vão ocupar os espaços vazios e competir com as plantas daninhas.
Noticiário Tortuga – Como escolher a planta forrageira mais adequada para cada realidade?
Janaína Martuscello – A escolha da planta forrageira é um passo importante para que a gente tenha sucesso na pecuária. Hoje, no Brasil, nós temos uma gama muito grande de plantas forrageiras, então precisamos saber escolher para nichos específicos. Fazer avaliação da fertilidade do solo, da topografia da região, do clima e fazer avaliação do sistema. Sistemas mais intensificados vão exigir forrageiras mais produtivas, mas que também são mais exigentes em manejo. Sistemas menos intensificados podem ser iniciados com uma planta forrageira de menor produção, que também vai ter uma menor exigência em fertilidade. Então, tudo isso deve ser avaliado.
Noticiário Tortuga – Mesmo sendo uma antiga conhecida, a seca ainda é um dos maiores desafios da pecuária brasileira. Como o produtor pode se preparar nas águas para não sofrer com a estiagem?
Janaína Martuscello – Como eu sempre digo, todo ano tem seca, e a pergunta é: você está preparado? Nós temos até um livro que aborda esse tema! A preparação para a seca só pode ser feita a partir de um planejamento forrageiro quando o pecuarista entende qual é a sua necessidade e qual é a sua demanda. Em fazendas de cria e de produção de leite não há variação em rebanho, como é, por exemplo, na recria e na engorda, em que você pode fazer venda de animais ou substituir lotes de mais pesados para mais leve para diminuir a lotação. Então, é preciso fazer um bom planejamento forrageiro para transferir o excesso de forragem do período das águas para o período seco do ano. Essa transferência pode ser feita de várias formas. Pode ser feita na forma de silagem de feno, de pasto diferido. Às vezes, a combinação de várias dessas formas pode ser utilizada na fazenda, usando diferimento, por exemplo, para animais de menor exigência, e feno e silagem para animais de maior exigência, porque são materiais conservados de melhor qualidade. É o planejamento forrageiro que dita essa transferência de forragem das águas para a seca para que a gente não passe aperto no período seco do ano.
Noticiário Tortuga – Como o produtor pode saber se está manejando corretamente a disponibilidade de forragem ao longo do ano?
Janaína Martuscello – Para que o pecuarista consiga saber se a disponibilidade de forragem está adequada, ele precisa avaliar se seus pastos não estão rapados ou se não estão passados. A pecuária brasileira precisa romper essas duas barreiras para dizer que é boa em manejar o pasto, o pasto passado e o pasto rapado. É importante que o produtor perceba o status do pasto, se tem mais folha do que talo, se ele não está muito baixo, se o animal não tem dificuldade de apreensão. É importante também que ele saiba o escore corporal e o Ganho Médio Diário (GMD) desses animais ou a produção de leite.
Às vezes, você tem uma lotação muito acima daquela que é permitida pela fazenda e aí você tem muitos animais ganhando pouco peso, com baixo desempenho. Em contrapartida, às vezes pode ter forragem sobrando com animais que até podem estar ganhando peso, mas a sua lotação não está muito adequada, então sobra capim e você pode melhorar o potencial da sua fazenda. É preciso avaliar a demanda e a oferta de forragem para saber se os pastos estão bem manejados.
Noticiário Tortuga – Uma pastagem bem manejada contribui para uma pecuária mais eficiente e sustentável?
Janaína Martuscello – Sim, uma pastagem bem manejada contribui consideravelmente para as questões de sustentabilidade dos nossos sistemas de produção. E precisamos disso para ter sistemas mais sustentáveis e muito mais eficientes. Nós precisamos produzir mais, em menor área, com menor impacto ambiental. E se a gente levar em consideração a capacidade de fixação de carbono dos nossos pastos, a conta fica bastante favorável. Provavelmente, nós não vamos conseguir neutralizar as emissões se não tivermos um sistema de integração Lavoura-Pecuária-Floresta, mas a gente diminui consideravelmente produzindo proteína de qualidade.
Noticiário Tortuga – O Capim Day já se consolidou como um grande evento de pastagens do Brasil. De onde surgiu a ideia de organizar esse evento? Os objetivos têm sido alcançados?
Janaína Martuscello – O Capim Day tem se consolidado como um dos maiores eventos de pecuária, sobretudo de pastagens no Brasil, e surgiu a ideia de fazer um evento itinerante para que a gente pudesse levar informações, tecnologia e ciência para lugares em que poucas pessoas vão, em que tem pouco evento, mas sempre buscando a rota da pecuária. Onde tem rebanho expressivo, onde tem bastante pecuarista, nós estamos lá com os melhores palestrantes da área, levando assuntos de muita relevância, tratados de uma forma bem interessante pelos maiores nomes da pesquisa nas suas respectivas áreas. Tem sido um absoluto sucesso, sempre casa cheia, e o evento tem se consolidado cada vez mais. E eu convido todo mundo a participar do Capim Day, que pode acontecer na sua região, aí na sua cidade, no seu estado. Noticiário Tortuga – O Brasil é referência mundial em produção de pastagens tropicais. O que faz do país esse “farol” para a pecuária a pasto? Janaína Martuscello – Exatamente. O Brasil é o farol na geração de ciência e tecnologia para o mundo da pecuária tropical. E é muito importante que a gente continue sendo esse farol, investindo em pesquisa, para ter bons resultados.
É preciso compreender a importância das universidades, da iniciativa privada, das Embrapas, fazendo pesquisas para que a gente possa ter uma pecuária muito mais tecnificada e muito mais eficiente. Então, o que faz a gente ser esse farol da pecuária é realmente essa força da nossa pesquisa e, sobretudo, do nosso pecuarista, que consegue ser resiliente apesar de todas as intempéries climáticas e das questões de segurança jurídica no nosso país.
Noticiário Tortuga – Para encerrarmos: se pudesse deixar apenas uma recomendação para o pecuarista que quer produzir mais arrobas por hectare e aumentar a rentabilidade da fazenda, qual seria?
Janaína Martuscello – O que eu recomendaria aos nossos pecuaristas para ter uma pecuária mais rentável e competitiva é tratar os pastos como lavoura, considerar capim como dinheiro, não achar que capim dá em qualquer lugar. Tratar bem e entender que, quando a gente consegue fazer bons casamentos, como, por exemplo, pastos bem manejados e bons suprimentos, a gente consegue acelerar muito a pecuária, diminuir o tempo que esses animais estão ali na fazenda e, consequentemente, ter maior rentabilidade.


