Augusto Heck
Instagram: @augustoheck
Gerente de Risco de Micotoxinas dsm-firmenich para LATAM
As micotoxinas sempre estiveram presentes na produção agropecuária, mas a nova Pesquisa Global de Micotoxinas da dsm‑firmenich, com dados específicos do Brasil em 2025, mostra um cenário que exige atenção redobrada do produtor de leite. As micotoxinas estão altamente prevalentes, ocorrendo simultaneamente. E seus efeitos vão muito além dos sintomas clínicos: comprometem silenciosamente o
desempenho, a reprodução e a saúde do rebanho. O objetivo deste artigo é traduzir os resultados da pesquisa para a realidade do pecuarista e apresentar caminhos práticos para mitigar riscos.
1. O RETRATO DO BRASIL: O QUE OS DADOS DIZEM?
Altíssima prevalência:
- 69% das amostras no Brasil continham fumonisinas (FUM) — a toxina que predomina no país.
- 49% apresentaram zearalenona (ZEA).
- 27% apresentaram aflatoxinas (Afla).
- Mais de 84% das amostras no Brasil tinham pelo menos uma micotoxina, e em diversas categorias a cocontaminação superou 90%.
Níveis preocupantes em dietas de ruminantes:
- Em TMR (ração total), as fumonisinas estiveram presentes em 100% das amostras, com 96% acima do limite de risco.
- B‑tricotecenos (como DON) apareceram em 26% das amostras.
- ZEA esteve presente em 93% das amostras de TMR.
Silagem: o maior foco de risco
- A silagem de milho continua sendo uma das maiores portas de entrada:
- 100% das amostras de silagem de milho no Brasil continham fumonisinas.
- 80% tinham aflatoxinas.
- 100% apresentaram zearalenona.
- Em outras silagens, 97% das amostras tinham fumonisinas, com 67% acima do limite de risco.
Os números confirmam aquilo que o produtor percebe no campo: mesmo fazendo um bom manejo da lavoura, as micotoxinas chegam ao cocho.
2. OS IMPACTOS VISÍVEIS — E INVISÍVEIS — NO REBANHO LEITEIRO
As micotoxinas não causam apenas intoxicações agudas. Seus efeitos são crônicos, silenciosos e cumulativos. E, como mostram os dados, a cocontaminação é a regra, não a exceção — o que potencializa o dano.
Aflatoxinas (Afla)
- Podem ser transferidas para o leite na forma de AFM1.
- Afetam consumo, ganho de peso e produção de leite.
- Associadas à diarreia, imunossupressão e maior incidência de mastite.
- Fumonisinas (FUM) — as campeãs no Brasil Efeitos diretos citados nos relatórios:
- Redução do consumo.
- Alteração da integridade intestinal (“intestino permeável”), prejudicando a absorção.
- Aumento de doenças entéricas.
- Imunossupressão.
- Aumento da CCS.
- Em novilhas, atraso no início da vida reprodutiva.
Zearalenona (ZEA)
Altamente estrogênica, é convertida no rúmen a α‑zearalenol, 10x mais potente, causando:
- Falhas reprodutivas.
- Cios irregulares.
- Anestro.
- Desenvolvimento mamário prematuro.
- Abortos e perdas embrionárias.
Deoxinivalenol (DON) e T‑2 (tricotecenos)
- Redução de consumo e produção de leite.
- Danos em fígado e rim em níveis mais altos.
- Imunossupressão e maior incidência de mastite.
- Lesões orais e piora de conversão alimentar.
Por que os efeitos “invisíveis” são mais perigosos?
Porque:
- O animal não morre.
- Os sinais são inespecíficos (baixa produção, menos cio, CCS maior).
- Confundem‑se com “mau manejo” ou “falta de energia”.
- A queda no desempenho passa despercebida e custa caro.
- No leite, pequenas reduções diárias significam grandes perdas anuais.
3. A CONTA NO BOLSO DO PRODUTOR
A soma dos efeitos subclínicos pode causar:
- Perda de 0,5 a 1,5 litros/vaca/dia em rebanhos expostos a tricotecenos e FUM.
- Aumento da CCS, reduzindo bonificações.
- Aumento de mastite clínica e subclínica.
- Queda no desempenho reprodutivo — menos prenhezes significa menos leite no futuro.
- Maior uso de medicamentos.
- Silagem mal preservada gera impacto durante toda a temporada.
Em uma fazenda de 100 vacas em lactação, perder apenas 0,8L/vaca/dia significa:
→ 2.400 litros/mês
→ 28.800 litros/ano
Uma perda que, muitas vezes, supera o custo de um programa eficiente de manejo de micotoxinas.
4. QUAL A ORIGEM DESSA PRESSÃO TÃO ALTA DE MICOTOXINAS?
Os próprios dados da pesquisa ajudam a entender.
4.1. Clima favorável aos fungos produtores de micotoxinas
O Brasil tem ambientes ideais para Fusarium e Aspergillus.
4.2. Safras com estresse hídrico ou calor
Esses fatores aumentam FUM, ZEA e aflatoxinas — exatamente as que aparecem como mais prevalentes.
4.3. Silagem mal compactada ou com entrada de ar
Silagens com bolsões de oxigênio são campeãs de tricotecenos e FUM.
4.4. Cocontaminação elevada
Combinadas, as toxinas multiplicam o impacto negativo. Como exemplo, DON e FUM.
5. COMO MITIGAR? ESTRATÉGIA PRÁTICA PARA O PECUARISTA DE LEITE
A dsm‑firmenich recomenda um programa com base em três pilares:
5.1. Prevenção na lavoura
- Híbridos tolerantes a fungos.
- Manejo para reduzir o estresse da planta.
- Colheita na matéria seca correta (32–35%).
- Enchimento rápido do silo e compactação > 240 kg MS/m³.
5.2. Boas práticas na silagem
- Lonas de alta barreira.
- Rigor no fechamento diário.
- Retirada correta (face limpa, sem degraus).
- Controle de infiltração de ar.
5.3. Uso de tecnologias confiáveis de mitigação
Os dados mostram altíssima prevalência de fumonisinas, ZEA e DON — toxinas que demandam mecanismos diferentes:
- Aflatoxinas: adsorção comprovada.
- Fumonisinas: biotransformação → quebra efetiva da molécula.
- Zearalenona e tricotecenos: biotransformação + suporte hepático e imunológico.
Tecnologias voltadas apenas para a “adsorção genérica” não são suficientes para os desafios atuais, especialmente diante da cocontaminação.
CONCLUSÃO: MICOTOXINAS SÃO UM DESAFIO REAL — MAS CONTROLÁVEIS
A nova Pesquisa Global de Micotoxinas deixa claro:
- O pecuarista brasileiro convive com níveis altos e constantes de contaminação.
- A cocontaminação é frequente e aumenta o impacto negativo.
- Parte dos danos é invisível e aparece na forma de menor produção, queda reprodutiva, má silagem, mais mastite e CCS elevada.
Mas, com um programa consistente, é totalmente possível:
- Reduzir perdas produtivas.
- Manter a saúde e a longevidade do rebanho.
- Proteger a qualidade do leite e as bonificações.
- Garantir mais previsibilidade e rentabilidade para a fazenda.
A dsm‑firmenich segue monitorando continuamente a pressão de micotoxinas no Brasil e no mundo para oferecer soluções atualizadas, seguras e eficazes para o produtor.

