Transformando sonhos em realidade

Fazenda monte azul é exemplo de produtividade e rentabilidade conquistadas com trabalho, nutrição e tecnologia

Luiz Carlos de Moura Castro
Supervisor Técnico Comercial DSM
Divino Antônio Santana Lima
Assistente Técnico Comercial DSM

Neto de libaneses, Jacob Saud e Ricardo Saud entraram para a pecuária seguindo os passos de seus pais, Hene Saud e Lucanda Miguel Saud, que, após se casarem, em 1954, estabeleceram-se no município de Pires do Rio, em Goiás. Até então trabalhando como farmacêutico, o sr. Henry comprou sua primeira propriedade em 1960, e lá passou a criar gado Gir leiteiro, seguindo a tradição de Uberaba/MG, sua cidade natal.

Treze anos depois, a família adquiriu a Fazenda Monte Azul. Incentivada por um projeto do Banco do Brasil para levar a cafeicultura ao Centro-Oeste, a propriedade foi transformada em lavoura de café, com 80 mil pés. No entanto, a empreitada naufragou. “Não deu certo porque não havia tecnologia adequada”, relembra Jacob Saud. Mas a frustração inicial pavimentou os caminhos da propriedade de volta ao caminho do leite.

Em 1978, após passar no vestibular para Medicina Veterinária na Universidade Federal de Goiás (UFG), o jovem Jacob Saud partiu para a capital, Goiânia, e iniciou os estudos. “Mas meu pai teve um problema de saúde e precisei abandonar o curso, pois morávamos no interior. A partir desse momento, me dediquei totalmente à fazenda e vi na pecuária leiteira uma oportunidade de negócio que encaixava no tamanho da terra que a gente tinha”, relembra.

“Ao lado do cafezal, havia uma olaria que produzia tijolo comum rústico. Criávamos um pouco de suíno, na faixa de 100 matrizes, e contruímos dois aviários, com capacidade para 30 mil frangos cada, que ficaram para as nossas irmãs na partilha da terra”, conta Jacob Saud, que, ao lado do irmão Ricardo, ficou responsável por tocar a Fazenda Monte Azul. “Na época em que estava cursando veterinária na UFG, chegou por aqui um gerente do BB, o sr. Raimundo Martins de Loyola, querendo conversar comigo, já que eu era o filho mais velho do sr. Henry. Ele me lançou um desafio e disse que eu não iria me arrepender: ‘Você tem coragem de trancar a matrícula na faculdade, arrancar esse cafezal e fazer uma lavoura de milho no lugar? Depois da lavoura, vou te arranjar recursos pra você comprar gado’. Perguntei para o meu pai e aceitamos!”, relembra.

E a lavoura de milho foi um sucesso! “Então, compramos 100 vacas de um criador que tinha gado bem apurado, adaptado ao leite, holandês 7/8. E começamos a focar na atividade leiteira, dando vários passos até conseguirmos chegar aonde estamos hoje”, ressalta Jacob Saud.

Atualmente, a Fazenda Monte Azul tem um rebanho de leiteiro de aproximadamente 11.500 litros, com 450 vacas paridas em lactação, para atender ao mercado interno. Trabalha, ainda, com Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e gado de corte, com 1.350 animais. Mas, para chegar a esses índices, foram inúmeros os desafios enfrentados. “Quando começamos, eu ordenhava manualmente 40 vacas, o curral tinha barro e levávamos leite de carroça até a cidade de Santa Cruz, que era muito próxima. O leite da tarde, colocávamos dentro do rego para esfriar. Tirávamos outro de madrugadinha e entregávamos. Era divertido. Nas águas, calamidade. Na seca, poeira e frio. Depois, contratamos leiteiro e ficou mais fácil. Fomos concretando o curral, colocando ordenha de balde ao pé e, hoje, temos dois retiros mecanizados e modernos, com conforto total”, lembra feliz.

Com o passar do tempo e a introdução da tecnologia no setor, as exigências das indústrias aumentaram. “Passamos a resfriar o leite. Compramos um freezer ‘grandão’ e colocávamos o leite nessa água gelada. Era bom, mas dava um trabalho danado. Gostoso de lembrar, mas, na época, era uma guerra. Depois, a tecnologia foi melhorando a vida da gente e a qualidade da produção”, afirma, citando a implantação da Inseminação Artificial, em 1983, como outro grande passo.

NUTRIÇÃO E MANEJO
O aumento da produção na Fazenda Monte Azul trouxe outros desafios para a equipe, como a introdução de novas tecnologias também na nutrição dos animais. “Trabalhamos com a Tortuga, marca da DSM, há mais de dez anos. E, além dos melhores produtos do mercado e da excelente qualidade, a maior contribuição que eles trouxeram foi a implantação de uma cultura de tecnologia no nosso negócio. Quando começamos, tínhamos um manejo rústico. Você cortava um ‘napierzinho’ de madrugada, jogava dentro da carroça, trazia para o triturador, punha no balaio e levava para as cocheiras. Aos poucos, os técnicos da Tortuga foram mudando a nossa mentalidade, escutamos e evoluímos. A primeira vez que ouvi falar que precisava dar núcleo próprio para as vacas em lactação foi com o dr. Sergio Cariolano, técnico da DSM na época. Eu levei um susto e pensei: ‘Pra que isso?’ Mas comecei a usar e vi que era uma ferrmenta extraordinária”, conta.

“Veio a cana e foi o maior sucesso. Depois, para melhorar o volumoso do gado, fomos aceitando a tecnologia da silagem. Plantar milho em terra vermelha e colher silagem parecia um mico! Hoje, tiramos de 60 a 65 toneladas por hectare e plantamos safra e safrinha”, ilustra Jacob Saud.

O conforto animal foi outro conceito apresentado pelo time da DSM. “O gado solteiro era todo misturado e eles explicaram que tinha que fazer lotes, bezerras de um lado, novilhas de outro. Eu achava que não ia dar conta, mas comecei a separar. Aí eles me convenceram a cuidar do conforto do gado, fizemos sombrite, fomos para o compost barn e, graças a Deus, melhorou muito! Hoje, temos dois compost barns, que alojam até 550 vacas. E como nossa recria vem vindo muito rigorosa, estamos pensando em fazer o terceiro daqui a um ano”, planeja.

Quanto mais tecnologia, mais produção. E para dar conta de tanta produtividade, a mão de obra é outro quesito indispensável. “Conseguimos reunir uma equipe muito boa, com funcionários bem treinados, inclusive com o auxílio da Tortuga. São de 25 a 30 colaboradores efetivos, fora os temporários. Nossa filosofia é buscar esse pessoal para dentro de casa, a gente é uma família só. Se não tiver funcionário do seu lado, sendo seu parceiro, tendo carinho com os animais, os equipamentos e os colegas, você não toca o negócio”, ensina Jacob Saud.

TRABALHANDO EM FAMÍLIA
Há mais de 50 anos, Jacob e Ricardo Saud estão à frente da Fazenda Monte Azul. “Temos uma saudável e abençoada parceria. Um dá suporte para o outro, e todos convivem em harmonia. O Ricardo e sua esposa, Dirlayne, têm duas filhas, Layse e Lara, uma médica e outra futura dentista. E eu tenho dois, Jacob Filho e Maísa, que são engenheiros civis”, conta orgulhoso.


A esposa Márcia Saud e a cunhada Dirlayne participam ativamente da administração da fazenda. Cuidam da parte financeira e do RH, e são o ‘braço direito’ dos sócios. Márcia é formada em contabilidade e cursa Administração, e Dirlayne é pedagoga. Juntas, elas tomam parte de todas as
decisões do grupo. “Sempre acompanhei os veterinários, a reprodução, as questões bancárias. Passo por todos os setores checando, organizando. A mulher tem uma visão diferente. Também cuido da família, organizo o dia a dia da casa”, relata Marcia.

Ao lado da família, o engenheiro civil Jacob Saud Filho reforçou o time como gerente administrativo da Monte Azul. “Semprei gostei da rotina da fazenda e a engenharia se encaixa muito bem, tanto na gestão e na administração como na organização. Então, apliquei meus conhecimentos no negócio leite”, explica.

“Jacob Filho nem parava em pé direito, mas já queria tirar leite das vacas. Ele adorava aquilo. Andava a cavalo com a gente desde cedo, foi pegando amor vendo a lida da fazenda, o avô, o pai, o tio. E sempre teve talento aflorado para mexer com os animais, é operador de máquina desde criança, competente em tudo o que faz. Sempre conversamos muito sobre o negócio leiteiro, os desafios e as oportunidades. Ele se formou, pegou o diploma e trouxe para a fazenda. É um privilégio termos um administrador que é engenheiro”, fala orgulhoso Jacob Saud.

“Quando éramos só nós, para mim era muito puxado. Trabalhava à noite fazendo lançamentos, acompanhava as visitas dos técnicos, a reprodução e toda a parte administrativa e financeira. Foi muito importante a vinda do Jacob Filho para a fazenda, além da segurança de que teremos um sucessor. Agradeço a Deus por isso”, alegra-se Márcia Saud.

E o processo de sucessão na propriedade teve início de forma natural. “Houve um acordo entre as partes e, como já tenho ampla experiência na fazenda e conhecimento do rebanho e dos processos, me encaixei na área que mais me identifico, que é a administrativa. Vou tomando conta e eles vão abrindo espaço para mim”, resume Jacob Filho.

Ao lado de uma visão especializada, com novas abordagens em controle e gestão, a entrada da nova geração nos negócios também incrementou o uso da tecnologia no campo. “Implantamos programas mais avançados para o manejo do rebanho. E usamos os smartphones com programas habilitados para, por exemplo, treinar os funcionários para desempenharem melhor as suas atividades. E eles também são mais cobrados em cima disso e recebem gratificações, que os incentivam a alcançar as suas metas”, explifica.

Jacob Filho tem nos ensinamentos do pai a base para as suas ações. “Meu pai sempre disse para nunca desistirmos dos nossos sonhos, para irmos em busca deles para conseguir. E que os problemas sempre existem, mas não podemos deixar que nos abalem”, exemplifica Jacob Filho.

“O processo de sucessão nos deixou ainda mais animados com os negócios, pois tudo o que construímos ao longo de tantos anos terá sequência”, ressalta Márcia Saud.

O mesmo entusiasmo é partilhado pelo patriarca, Jacob Saud, que sempre viu a pecuária leiteira como um negócio promissor. “O leite é um produto nobre e, junto com seus derivados, faz parte da mesa do povo brasileiro e do mundo todo. Desde o início, tenho buscado as melhores alternativas. Como qualquer atividade, passamos por momentos difíceis, mas conseguimos ter uma vida digna, criar a nossa família. Nessa atividade, vi minhas perspectivas e sonhos irem se realizando”, conclui o pecuarista.

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