Pecuária leiteira com gestão: Um negócio rentável

AS PROPRIEDADES QUE INVESTEM EM FERRAMENTAS DE GESTÃO TÊM MELHORADO CONSIDERAVELMENTE A RENTABILIDADE DO NEGÓCIO E JÁ TRABALHAM NA EXPANSÃO DOS PROJETOS

A produção de leite na Fazenda Canadá, no município de Curvelo, interior de Minas Gerais, vai saltar de sete mil litros/dia para 12 mil litros/dia até o final de 2019. Um crescimento planejado de mais de 70% que está exigindo do proprietário, Thiago Alvares Guimarães, o monitoramento constante dos números da fazenda. “Aqui, tudo é anotado. Até um prego que compro vai parar na planilha”, garante o produtor mineiro.

Nem sempre o sistema de gestão na Canadá, que está no mercado há duas décadas, foi dessa forma. Antes, limitavase ao controle do fluxo de caixa (despesas/receitas). A mudança começou há cerca de dois anos, com a adoção de um software de gestão e a participação no projeto do Sebrae Minas, o Educampo, focado na assistência gerencial e na tecnológica intensiva. As anotações dos dados da fazenda também passaram a ser feitas regularmente em planilhas de Excel. Com isso, a produção aumentou. Três anos atrás, a produção diária era de quatro mil litros/dia, 75% inferior à atual.

A Canadá tem um rebanho de 280 animais em lactação, mas, até o final do ano, deve chegar a 400 exemplares. “A fazenda evoluiu muito nesses dois últimos anos. Estamos crescendo rápido e essa diferença é visível. Agora, consigo enxergar os gargalos e tenho números para tomar decisões mais acertadas”, conta Thiago. Um dos gargalos detectados foi no setor de alimentação, o maior custo de qualquer propriedade leiteira. A saída foi investir nas áreas de lavoura para melhorar a produção por hectare e a qualidade do produto final. Dos 250 hectares da fazenda, 180 ha são destinados ao plantio de milho e sorgo, usados como alimento do rebanho, e de soja, que é vendida para custear a compra do farelo de soja. Outra decisão tomada na parte nutricional foi investir na suplementação do rebanho com produtos Tortuga, marca da DSM. “Oferecer ao rebanho um suplemento de qualidade é essencial. Não dá para olhar só o preço, tem de ver os resultados”, garante Thiago.

Dentro do processo de aprimoramento da gestão, neste ano, a Fazenda Canadá decidiu dar um passo além. Agora, é uma das propriedades que integra o Programa de Gestão DSM Leite (PGDSM Leite). Criado no final de 2017, o programa possibilita o gerenciamento da fazenda com base em diversos indicadores econômicos e zootécnicos. Outro diferencial do PGDSM Leite é a possibilidade de comparar os resultados com o de outras propriedades e, a partir daí, tomar decisões para se tornar mais competitivo. Essa ferramenta é conhecida como benchmarking (avaliação comparativa, em livre tradução do inglês) e é amplamente usada no mundo dos negócios como forma de encorajar as empresas a pensar além de suas limitações, a buscar fatores-chaves que aumentem exponencialmente sua competitividade.

De acordo com o coordenador do Programa de Gestão DSM Leite, Felipe de Andrade, o benchmarking entre as fazendas participantes é importante, pois mostra o que as propriedades que mais ganharam dinheiro estão fazendo para alcançar esse resultado. “A comparação é feita com as 33% propriedades mais rentáveis do programa, tendo como índices de classificação as de maior Margem Bruta (Renda Bruta menos o Custo Operacional Efetivo) por litro de leite (R$/L) e maior Margem Bruta por área
(R$/ha). São comparados indicadores econômicos e zootécnicos gerados ao longo dos últimos 12 meses entre as fazendas do programa”, explica. A cada quatro meses, são gerados novos benchmarks após a análise técnica dos dados, operação realizada pela empresa Labor Rural, parceira da DSM. A partir dos relatórios mensais e dos benchmarks quadrimestrais, o produtor consegue avaliar se sua gestão e os indicadores da fazenda estão realmente se tornando mais eficientes.

Buscar a excelência no gerenciamento da atividade deveria ser uma regra, mas, infelizmente, é algo aplicado por poucos na pecuária leiteira. A falta de gestão é vista como o principal gargalo do segmento no Brasil. “Gestão vai muito além de anotar as informações zootécnicas do rebanho e da parte financeira. Isso não é gestão, é só uma das etapas. É preciso usar todos esses dados na tomada de decisão. E as propriedades que aderiram ao programa conseguiram enxergar a sua importância para o sucesso do negócio”, esclarece o coordenador do PGDSM Leite.

Então, se a questão é ter o controle das informações para usálas sempre que necessário, de forma estratégica, o primeiro passo de uma boa gestão começa justamente pelo registro das informações. Nesse sentido, a DSM desenvolveu uma ferramenta especial para que os dados anotados possam ser transformados, a cada final de mês, em indicadores econômicos e zootécnicos. A ferramenta foi desenvolvida especialmente para o PGDSM Leite pela Universidade Federal de Viçosa, via Programa de Desenvolvimento da Pecuária de Leite – PDPL, e a Labor Rural, empresa especializada em prestação de serviços em assistência técnica e gerencial.

Segundo o zootecnista do PDPL, Renato Barbieri Shinyashiki, um dos diferenciais da ferramenta é a possibilidade de detalhar separadamente vários custos, tanto da parte econômica quanto da zootécnica. Depois, esses dados são transformados em diversos indicadores-referência. Antigamente, trabalhavase na pecuária leiteira apenas com indicadores técnicos, tais como Taxa de Concepção e Idade ao Primeiro Parto. Depois, foi desenvolvida pelo professor da UFV, Sebastião Teixeira Gomes, a metodologia de cálculo de custo de produção, abordando os custos operacionais efetivos, operacionais totais e totais, hoje amplamente utilizada em programas de gestão”, informa Shinyashiki. O zootecnista alerta que muitas pessoas trabalham apenas com o conceito de Despesa/Receita, mas ele não é apropriado para quando se deseja calcular o Custo de Produção da pecuária leiteira.

Para facilitar a coleta dos dados, a ferramenta foi desenvolvida de forma a ser utilizada tanto pelo produtor como pelo técnico ou representante comercial da DSM. Os dados podem ser lançados na frequência que o produtor achar melhor, diariamente, semanalmente. Porém, ela precisa estar completa ao final de cada mês, a fim de gerar um relatório mensal com os índices zootécnicos e econômicos da fazenda, com indicadores como: custo de produção do leite, MB por litro de leite, MB por ha, estratificação dos custos em relação ao COE do leite e em relação ao preço recebido por litro de leite.

O programa gera 29 indicadores-referência, que vão desde a área da fazenda, o total do rebanho, as vacas em lactação/ área para pecuária e a produção/mão de obra permanente até o preço médio do leite e o gasto com volumoso na atividade/Receita Bruta da atividade.

Dentre os dados da ferramenta, estão os que compõem o Fluxo de Caixa. Aí devem entrar as receitas com a atividade leiteira, sendo o leite o principal produto comercializado. Além do leite, a renda da atividade é obtida com a venda de animais, laticínios, excedentes de volumoso, dejetos ou composto orgânico. Na parte das despesas, é preciso registrar todo o desembolso, ou seja, os gastos com concentrado, medicamentos, energia elétrica, impostos, taxas etc.

Os indicadores zootécnicos são aqueles relacionados ao rebanho, referentes ao desempenho produtivo (produção de leite/vaca/dia, ganho de peso, idade ao primeiro parto, intervalo de parto e produção de leite/ha/ano), à saúde dos animais (mastite clínica, retenção de placenta e problemas de casco), à composição do leite e CCS e à relação entre as categorias ou composição do rebanho. A composição do rebanho representa o número de vacas em lactação, de vacas secas, de fêmeas e machos das fases de cria e recria, de touros e receptoras. “Quando o produtor tem a informação da Variação do Inventário Animal, consegue enxergar a valorização do seu patrimônio em animais e a diferença de valor agregado de cada animal ou categoria ao longo de um ano”, informa Andrade, lembrando que, nesse período, houve mudança de categorias dos bovinos.

Analisando os indicadores técnicos, alguns merecem destaque. O indicador “Vacas em Lactação/Total do Rebanho” está relacionado com a persistência e a duração da lactação/eficiência reprodutiva do plantel e aponta o número de animais que realmente estão trazendo receita direta para a fazenda. Sendo o leite o componente principal da renda bruta da atividade,
é importante que se tenha mais vacas em lactação do que animais sem gerar receita e, pior, consumindo esse ganho. “Em fazendas em crescimento, cuja recria é maior, é recomendável ter, pelo menos, 45% dos animais do rebanho em lactação. Já nas fazendas estabilizadas essa taxa aumenta, chegando a 55%. Se no rebanho tiver muito animal improdutivo sendo alimentado, haverá aumento do custo. Porém, é preciso ter cuidado na hora de solucionar esse problema, evitando que os animais de recria sejam negligenciados na parte nutricional, pois eles são o futuro da fazenda”, orienta o zootecnista do PDPL.

Ele alerta ainda que, na pecuária leiteira, uma ação mal planejada reflete negativamente nos anos seguintes, ou seja, qualquer falha no sistema pode afetar a produção no futuro. “Nos anos em que há alta nos preços do concentrado, muitos produtores optam por reduzir o fornecimento de alimento de categorias como a recria e isso vai refletir depois na reprodução desses animais”.

Outro indicador técnico que deve ser monitorado é o indicador Vaca em Lactação/Total de Vacas, pois mensura o reprodutivo da fazenda. Este precisa girar em torno de 83%, pois não é desejável ter muita vaca seca ou improdutiva no rebanho.

Na hora de tomar a decisão, o produtor deve evitar fazer uma análise isolada dos indicadores, pois os dados zootécnicos e os econômicos são interligados. No caso da nutrição, por exemplo, é possível avaliar qual a interação entre os suplementos nutricionais e a composição do leite, entre os suplementos e a margem bruta da atividade etc. “Um diferencial do PGDSM Leite é justamente o fato de os dados relacionados à suplementação estarem detalhados, permitindo essa comparação. Em outros programas de gestão, normalmente o custo com suplemento está embutido em concentrado e fica difícil para o produtor perceber se os gastos com os núcleos estão sendo compensados pelo aumento da receita e da eficiência. De acordo com o último relatório, as fazendas mais rentáveis do programa investem 16% a mais em suplementos minerais e aditivos, conseguindo 80% a mais de MB unitária (R$/L) e 46% a mais de MB por área (R$/ha)”, assegura Andrade.

É possível, ainda, obter indicadores para avaliar se o gargalo está na mão de obra. Por exemplo, o indicador “Produção/Mão de Obra Permanente” mostra a eficiência da utilização da equipe de trabalho. “Melhorar a eficiência desse indicador não significa necessariamente demitir funcionário. Pelo contrário. Devem ser desenvolvidas ações para tornar as
pessoas e as operações mais eficientes. Portanto, investir em treinamentos/capacitações e tecnologias capazes de otimizar os recursos tempo e mão de obra é uma alternativa aplicável e com foco em resultado”, explica o coordenador do programa.

Para verificar se a propriedade é eficiente na utilização da mão de obra, devemos analisar dois indicadores: produção de leite diária pelo número total de funcionários da fazenda (litros/funcionário/dia) e quantidade de vacas em lactação ordenhadas por funcionário (vl/funcionário/dia), sendo os valores mínimos preconizados 350 e 20, respectivamente. Para concluir algo, é preciso avaliar se a eficiência obtida está atrelada à mão de obra ou às vacas em lactação. Isso porque a propriedade pode possuir 35 vacas em lactação para cada funcionário, produzindo em média 10 litros cada, resultando nos 350 litros/funcionário/dia, ou ter 10 vacas em lactação para cada funcionário, com média de 35 litros/dia cada, resultando nos mesmos 350 litros diários. “No primeiro caso, podemos concluir que a eficiência está atrelada à mão de obra e, no segundo caso, às vacas do rebanho”, afirma Renato Shinyashiki.

Já o indicador “Produção/Área para Pecuária” permite verificar quão eficiente está sendo a utilização do recurso terra, importante variável do sistema por se tratar de um montante considerável de capital imobilizado. O indicador litros de leite/ha/ano tem sido um dos mais utilizados na gestão do negócio e o que melhor traduz a eficiência da atividade leiteira. Isso porque as propriedades leiteiras possuem, em média, 60% de todo o seu capital empatado em terras. Segundo Renato Shinyashiki, um novo indicador será implantado no PGDSM. “Estamos trabalhando para implementar o ‘Estoque de Capital por litro de leite’, que permitirá avaliar a eficiência do capital que está empatado no negócio”, informa.

O fato é que as fazendas que acreditam na gestão e na adoção das tecnologias estão apresentando bom desempenho, sejam elas pequenas, médias ou grandes. “Temos casos de produtores que, através de um sistema de gestão eficiente, conseguiram atingir uma produção sustentável e altamente rentável”, conclui Renato Shinyashiki.

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