Manejo de pastagens e suplementação na transição seca-águas: desafios e estratégias nutricionais

Lucas Freires Abreu
Instagram: @lucasdeohio
Consultor Técnico Comercial dsm-firmenich

A transição seca-águas: o período crítico das pastagens
A transição da seca para as águas é um dos momentos mais sensíveis para o manejo das pastagens tropicais. Após meses de déficit hídrico e baixa produção, as gramíneas retomam o crescimento com o retorno das chuvas e temperaturas elevadas. Nesse estágio inicial, as folhas apresentam alto teor de água, grande fração de compostos nitrogenados solúveis e baixa fibra efetiva, o que reduz o tempo de retenção ruminal e pode ocasionar diarreias e queda de desempenho (Santos et al., 2009).

Durante esse período, observa-se também uma queda significativa no consumo de sal mineral, consequência direta da maior umidade das forragens e da alteração no comportamento ingestivo dos animais. As gramíneas jovens e tenras se tornam mais atrativas que o cocho, levando à redução do consumo de minerais essenciais como fósforo, cobre, zinco e cobalto. Em rebanhos de cria, essa deficiência compromete a fertilidade, a involução uterina e a imunidade, refletindo-se no desempenho reprodutivo e no desenvolvimento inicial dos bezerros (Paulino et al., 2018; Carvalho et al., 2019).

Neste período, é fundamental o monitoramento do consumo mineral e o ajuste do manejo do cocho, garantindo drenagem e mantendo o suplemento seco. Suplementos adensados, com fósforo elevado e microminerais de alta biodisponibilidade, ajudam a manter o consumo dentro da faixa ideal.

A superutilização da rebrota, ainda com sistema radicular debilitado, provoca sobrepastejo, perda de vigor e queda da capacidade de suporte, acelerando a degradação da pastagem (Costa e Queiroz, 2017).

Manejo de altura: base para a perenidade do pasto
Respeitar as alturas de entrada e saída é o princípio fundamental para garantir produtividade e longevidade das pastagens. Entradas precoces esgotam reservas de carboidratos e atrasam a rebrota; saídas tardias aumentam o sombreamento e o entouceiramento, reduzindo a proporção de folhas digestíveis (Costa e Queiroz, 2017).

Pastagens bem manejadas mantêm maior taxa de lotação, maior ganho por hectare e menor necessidade de reforma, comprovando que manejo adequado é mais eficiente e econômico que recuperação posterior (Zimmer et al., 2012).

Além do manejo de altura, o ajuste da taxa de lotação deve acompanhar a oferta de forragem. Em sistemas intensivos, essa relação precisa ser monitorada semanalmente, pois as variações de crescimento do capim são muito rápidas durante a transição. Manter um número excessivo de animais em pastos que ainda estão se recuperando das secas pode comprometer toda a produção forrageira da estação, resultando em queda na capacidade de suporte e, posteriormente, em degradação da pastagem.

Sequestro de bovinos
(confinamento de transição)
O sequestro de bovinos, também chamado de confinamento de transição, é uma alternativa eficaz para proteger a rebrota no início das chuvas e garantir um recomeço de safra com capim vigoroso e nutritivo. A prática consiste em retirar temporariamente os animais do pasto, geralmente animais jovens, e mantê-los confinados ou semiconfinados até que a forrageira atinja a altura ideal de pastejo (Nascimento, 2021). Essa estratégia visa preservar as reservas energéticas da planta, evitar o superpastejo precoce e contribuir para maior acúmulo de folhas verdes e melhor desempenho animal nas fases seguintes.

Durante o confinamento de transição, é possível ainda ajustar com precisão a dieta dos animais, utilizando silagem, feno ou pré-secado combinados a rações proteico-energéticos. Desta forma, garantindo ganho de peso contínuo antes da liberação dos pastos. Para esse tipo de manejo, silagens de capim tendem a ser mais adequadas, pois apresentam teores de nutrientes digestíveis totais (NDT) mais equilibrados às exigências dessa fase, fornecendo energia moderada e fibra efetiva suficiente para evitar distúrbios ruminais e favorecer a adaptação.

Alternativas quando não há volumoso disponível
Para propriedades que não possuem estrutura suficiente para o confinamento de transição, uma alternativa viável é a adoção de concentrados fibrosos, como polpa cítrica, casca de soja e caroço de algodão. Esses ingredientes oferecem energia fermentescível sem riscos de acidose, auxiliando na estabilização do ambiente ruminal e no aproveitamento da rebrota. A polpa cítrica apresenta boa digestibilidade com fermentação ruminal segura (Bampidis e Robinson, 2006); a casca de soja fornece fibra de alta degradabilidade, que melhora a fermentação ruminal (Ipharraguerre & Clark, 2003); e o caroço de algodão é uma excelente fonte de energia e proteína, devendo ser usado com moderação (~15% da dieta) devido ao teor de gordura e à presença de gossipol (Gadelha et al. 2014). Esses concentrados são estratégias eficazes para suprir energia e proteína de forma segura, especialmente em fazendas que não possuem volumosos conservados disponíveis no período de transição.

Ainda na ausência de concentrados fibrosos ou de volumoso conservado, uma alternativa de manejo é reduzir temporariamente a taxa de lotação, retirando parte dos animais das áreas em rebrota. Desta forma, o capim descansa e recupera suas reservas antes de ser novamente pastejado. O ajuste da carga animal no início das chuvas é essencial para evitar o superpastejo e assegurar o vigor e a persistência das pastagens durante a estação das águas (Borghi et al., 2018).

Na prática, o produtor pode remanejar categorias menos prioritárias, vender alguns animais ou diferir parte dos piquetes, dando tempo para o pasto atingir a altura ideal de entrada. É uma estratégia de baixo custo e alto retorno, que contribui para um início de safra mais equilibrado e produtivo.

Suplementação mineral e proteica
Durante a transição seca–águas, a queda no valor nutritivo do pasto e na ingestão de sal mineral prejudica diretamente o balanço energético e proteico das vacas em reprodução (Harvet et al., 2021). Nessa fase, muitas matrizes perdem escore de condição corporal (ECC) e entram na estação de monta com balanço energético negativo, o que compromete a ovulação, a concepção e o intervalo entre partos (Cooke et al., 2021). As vacas com ECC inferior a três apresentam drástica redução na taxa de prenhez, sendo essencial o fornecimento de suplementos que assegurem a ingestão adequada de proteína metabolizável e de minerais de alta biodisponibilidade (Valadares Filho et al., 2023).

Na recria a pasto, a suplementação é indispensável mesmo com bom manejo de pasto. Níveis moderados de 0,3% a 0,4% do peso corporal em suplementos proteico-energéticos tendem a elevar o ganho médio diário (GMD) e, sob bom manejo de altura e lotação, encurtar a duração da recria (Araújo et al., 2021; Barbero et al., 2015). Esses suplementos complementam a proteína da forragem e fornecem energia prontamente fermentescível, favorecendo o ambiente ruminal e a eficiência microbiana, o que resulta em melhor conversão alimentar e maior produtividade por hectare.

Entre as opções comerciais, destacamos:

  • FOSBOVI® Reprodução – suplemento mineral pronto para uso, voltado a vacas de cria. Melhora escore corporal, fertilidade, imunidade e peso à desmama.
  • FOSBOVI® Proteico-Energético 25M – suplemento versátil para recria e terminação a pasto, indicado para uso anual, garantindo desempenho elevado mesmo sob menor oferta de forragem.
  • FOSBOVI® Advance – mineral ureado e aditivado com Digestarom para uso em todas as categorias animais. Aumenta o GMD (comparado a monensina), melhora a saúde intestinal e resposta imune.

Aliados ao manejo adequado, esses suplementos transformam a transição — antes um gargalo produtivo — em oportunidade para ganhos consistentes em desempenho e fertilidade.

Considerações finais
A eficiência da pecuária tropical depende do manejo de pastagens. Planejar a transição seca-águas, respeitar as alturas de manejo, adotar práticas de confinamento de transição, monitorar o consumo mineral e ajustar a suplementação são medidas essenciais para manter desempenho estável e sustentabilidade produtiva.

Com planejamento nutricional e operacional, o pecuarista passa a controlar a estacionalidade da forragem e manter o rebanho em alta performance o ano todo.

Referências

  • Araújo, T. L. R.; Barbero, R. P.; Oliveira, A. S.; et al. (2021). Protein sources for growing Nellore bulls under tropical pasture conditions during the rainy season. Animals, 11(8): 2225. https://doi.org/10.3390/ani11102959
  • Bampidis, V. A., and Robinson, P. H. (2006). Citrus by-products as ruminant feeds: A review. Animal feed science and technology, 128(3-4), 175-217. doi.org/10.1016/j.anifeedsci.2005.12.002
  • Barbero, R. P.; Reis, R. A.; Medeiros, S. R.; et al. (2015). Pasture height at the beginning of the grazing period and supplementation level for beef cattle production. Animal Feed Science and Technology, 206: 106-116. http://dx.doi.org/10.1016/j.anifeedsci.2015.09.010
  • Borghi, E.; Gontijo Neto, M. M.; Resende, R. M. S.; Zimmer, A. H.; Almeida, R. G.; Macedo, M. C. M. (2018). Recuperação de pastagens degradadas. In: Nobre, M. M.; Oliveira, I. R. de (Eds.). Agricultura de baixo carbono: tecnologias e estratégias de implantação. Brasília, DF: Embrapa, cap. 4, p. 105–138.
  • Carvalho, V. F.; Valadares Filho, S. C.; Paulino, P. V. R.; et al. (2019). Efeitos da nutrição sobre a reprodução e desempenho de vacas de corte e bezerros lactentes. Revista Brasileira de Zootecnia, 48:e20180242. https://doi.org/10.1590/rbz4820180242
  • Cooke, R. F.; Lamb, G. C.; Vasconcelos, J. L. M.; Pohler, K. G. (2021). Effects of body condition score at initiation of the breeding season on reproductive performance and overall productivity of Bos taurus and B. indicus beef cows. Animal Reproduction Science, 230: 106799. https://doi.org/10.1016/j.anireprosci.2021.106820
  • Costa, J. A. A.; Queiroz, H. P. (2017). Régua de Manejo de Pastagens: edição revisada. Campo Grande, MS: Embrapa Gado de Corte, 7 p. (Comunicado Técnico, 135).
  • Detmann, E. (2022). Produção em pasto na seca: como aproveitá-lo melhor usando suplementação. In: Santos, M.E.R.; Martuscello, J.A. (orgs.) Todo ano tem seca! Está preparado? São Paulo: Reino Editorial.
  • Gadelha, I. C. N.; Fonseca, N. B. S.; Oloris, S. C. S.; Melo, M. M.; Soto-Blanco, B. (2014). Gossypol toxicity from cottonseed products. The Scientific World Journal, 2014:231635. https://doi.org/10.1155/2014/231635
  • Harvey, K. M.; Cooke, R. F.; Marques, R. S. (2021). Supplementing trace minerals to beef cows during gestation to enhance productive and health responses of the offspring. Animals, 11(4): 1047. https://doi.org/10.3390/ani11041159
  • Ipharraguerre, I. R.; Clark, J. H. (2003). Soyhulls as an alternative feed for lactating dairy cows. Journal of Dairy Science, 86(4): 1052–1073. https://doi.org/10.3168/jds.S0022-0302(03)73689-3
  • Nascimento, F. A. (2021). Confinamento de bezerros no período de transição secas-águas e seus efeitos sobre a recria e a terminação. Tese (Doutorado em Zootecnia) — Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Jaboticabal.
  • Paulino, M. F.; Moraes, E. H. B. K.; Detmann, E. (2018). Nutrição de vacas de cria e bezerros em sistemas de pastejo tropical. In: Paulino, M. F. (ed.) Nutrição de Bovinos de Corte a Pasto. 2ª ed. Viçosa: UFV, p. 225–260.
  • •Santos, M. E. R.; Paulino, M. F.; Valadares Filho, S. C. (2009). Suplementação de bovinos em pastagens tropicais. Revista Brasileira de Zootecnia, 38(2): 322–331.
  • Valadares Filho, S. C.; Saraiva, D. T.; Benedeti, P. D. B.; Silva, F. A. S.; Chizzotti, M. L. (2023). Exigências nutricionais de zebuínos puros e cruzados – BR-Corte. 4ª ed. Viçosa, MG: Universidade Federal de Viçosa, 480 p.
  • Zimmer, A. H.; Macedo, M. C. M.; Kichel, A. N.; Almeida, R. G. (2012). Degradação, recuperação e renovação de pastagens. Embrapa Gado de Corte, Documentos 189, Brasília/Campo Grande, 46 p. (ISSN 1983-974X).

Leia também