Inteligência Artificial na pecuária: da teoria à prática no dia a dia do produtor

Thiago Pacheco
Business Development Lead dsm-firmenich

A inteligência artificial (IA) está moldando uma nova era — e o campo é parte essencial dessa transformação. Assim como a internet e os smartphones redefiniram a forma como vivemos e trabalhamos, a IA está pronta para revolucionar a produção agropecuária, trazendo decisões mais rápidas, precisas e rentáveis.

No agronegócio, essa revolução já começou. Ferramentas inteligentes estão sendo integradas à rotina das fazendas, analisando grandes volumes de dados em tempo real, antecipando problemas, otimizando recursos e revelando oportunidades que antes passavam despercebidas. Mais do que tecnologia, a IA representa uma mudança de mentalidade: uma nova forma de pensar o campo, baseada em dados, previsibilidade e autonomia. O produtor deixa de reagir aos desafios e passa a antecipá-los, com base em informações concretas e análises profundas.

Aliada do pecuarista
Embora o termo ainda soe novo no campo, o uso de tecnologias na pecuária tem trajetória antiga. Desde a década de 1980, sensores para ordenha e alimentação já estavam presentes em fazendas na Europa e nos Estados Unidos. A partir dos anos 2000, recursos como identificação por radiofrequência (RFID), sistema de navegação por satélite (GPS) e sensores biométricos tornaram mais preciso o monitoramento da saúde e da produção animal. Hoje, ferramentas que integram IA, IoT (Internet das Coisas) e blockchain (livro digital de registro coletivo) já oferecem rastreabilidade, bem-estar e sustentabilidade, mas o Brasil ainda engatinha na adoção. Com produtividade média de apenas quatro arrobas por hectare/ano — frente a mais de 18 arrobas em sistemas intensivos —, o país enfrenta o desafio de profissionalizar sua base produtiva e usar melhor o seu potencial genético.

Nesse cenário, a tecnologia se torna cada vez mais indispensável. E essa transformação não é distante, nem inacessível. Ela já está acontecendo, de forma prática e integrada ao dia a dia da produção. E o mais importante: ela coloca o produtor no centro da inovação, como protagonista de um futuro mais sustentável, eficiente e inteligente.

O campo do futuro está sendo construído agora — com inteligência, precisão e propósito. E a IA é uma das ferramentas mais poderosas para quem quer liderar essa jornada.

Lore™ e a evolução digital no campo
Foi nesse cenário que a dsm-firmenich decidiu inovar. Após lançar o primeiro software brasileiro para a pecuária de corte, a empresa apresentou, em 2021, a Lore™, primeira inteligência artificial voltada ao setor. Hoje, a plataforma apoia mais de 700 fazendas, com nove milhões de animais monitorados a pasto e 800 mil em confinamento. Seu diferencial está na capacidade de prever situações críticas, como o desabastecimento de cocho — que pode comprometer até 20% do desempenho animal —, o estresse térmico e o melhor momento de venda. Além disso, integra dados de diferentes fontes em uma leitura única, clara e acionável.

Com base nessa experiência bem-sucedida, nasceu a Lore™ Milk, voltada à pecuária leiteira brasileira. A nova plataforma foi desenvolvida a partir das necessidades do produtor de leite brasileiro e está integrada ao FarmTell™ Milk, sistema global com mais de 17 mil usuários, que incorpora recursos avançados, como a validação automática de dados — o que evita erros na entrada de informações e aumenta a precisão das análises.

Na prática, a Lore™ Milk permite prever o estresse térmico com até dois dias de antecedência, acompanhar em tempo real indicadores de qualidade do leite (como CCS, gordura e proteína), avaliar a ocorrência de casos de mastite com base no histórico do rebanho e comparar o desempenho da fazenda com benchmarks nacionais e internacionais. A plataforma é intuitiva, está em constante evolução e foi desenhada para dar mais autonomia ao produtor.

Os desafios do leite no Brasil são bem conhecidos: mastite pode reduzir em até 42% a produção por quarto mamário afetado; o estresse térmico impacta consumo, produção e fertilidade; e o número de produtores que abandonam a atividade cresce a cada ano — um a cada 11 minutos, segundo o IBGE. A Lore™ Milk surge como resposta a esse cenário. Uma ferramenta robusta, com linguagem simples e foco na ação: produzir mais, com mais segurança, precisão e inteligência.

Tudo o que importa, em um só lugar
Na pecuária leiteira, cada litro conta. Por isso, decisões não podem esperar pelo fechamento do mês. Com indicadores atualizados diariamente, a Lore™ Milk permite ao produtor agir no presente: antecipar riscos, ajustar estratégias e proteger resultados.

Estudos mostram que uma vaca mal manejada pode perder entre dois e cinco litros de leite por dia. Alimentação inadequada, estresse térmico, mastite e rotinas de ordenha ineficientes são os principais fatores. Altos níveis de CCS afetam a qualidade e a quantidade do leite, podendo reduzir a produção em até 2,5% a cada 100 mil células a mais no tanque. Já a baixa ingestão de matéria seca durante a lactação pode significar perdas diárias de até 2,4 litros por animal.

Com base no ITU (Índice de Temperatura e Umidade), a Lore™ Milk prevê o risco de estresse térmico com até dois dias de antecedência. Isso permite agir antes que o impacto chegue ao tanque — ajustando dieta, ventilação ou sombreamento. A plataforma também organiza os dados de qualidade do leite em gráficos simples e faixas de referência para gordura, proteína e CCS. O produtor consegue visualizar tendências, corrigir rotinas e orientar sua equipe com precisão.

Outro diferencial é o benchmarking automático. A plataforma compara os dados da fazenda com milhares de propriedades no Brasil e no mundo. Saber onde está — e para onde pode evoluir — é o primeiro passo para melhorar. Em um setor em que a produtividade pode variar até dez vezes entre fazendas com ou sem gestão ativa, essa referência é essencial.

Com a Lore™ Milk, o produtor não precisa mais decifrar dados sozinho. Todas as informações relevantes estão reunidas em um só lugar — prontas para transformar dados em decisões, proteger o rebanho e impulsionar os resultados da fazenda.

Referências bibliográficas:

Dairy Cattle Milk Production and Quality | P. State Extension

Quanto o Brasil realmente investe em inteligência artificial?

Quais são os tipos de Inteligência Artificial (IA)? Exemplos e características | Alura

Como a Inteligência Artificial (IA) pode contribuir com a pecuária brasileira? – Zootecnia Brasil

Você sabe quais são os maiores desafios da pecuária brasileira? – Giro do Boi

Pecuária brasileira sofre prejuízos de cerca de US$ 14 bilhões por conta de parasitas – Jornal da USP

Parasitas causam prejuízo de 18 bilhões por ano a pecuária brasileira – Portal Embrapa

PC-Pecuaria-corte-SOBER-2022.pdf

Pecuária do futuro: como a inteligência artificial deve mudar a atividade no País – Giro do Boi

22 Top AI Statistics & Trends – Forbes Advisor

Análise do retorno econômico da pecuária de corte no Brasil

Bovinocultura de leite no Brasil: evolução e tendências. – Portal Embrapa

O limite da resiliência: o desgaste psicológico e emocional dos pequenos produtores de leite | MilkPoint

ANUÁRIO Leite 2025: produção de leite e as mudanças climáticas. – Portal Embrapa

Mastite – Portal Embrapa

O estresse térmico compromete a produtividade e impacta até as gerações futuras – Canal do Leite

estresse_calorico_leiteBruna.pdf

World Dairy Situation Report – IDF – IDF is the leading source of scientific and technical expertise for all stakeholders of the dairy chain

CILEITE – Centro de Inteligencia do Leite

Cow.PDF

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