Mylene Abud
Mesmo sem uma retração expressiva da oferta, o mercado pecuário brasileiro já começou a dar sinais claros de recuperação. As exportações seguem em ritmo forte, a disponibilidade interna de carne começa a se ajustar e o ciclo de alta ainda está no início. Cenário que, segundo Hyberville Neto, Diretor da HN Agro e consultor de mercados agropecuários, tende a se estender até 2027 ou 2028.
“Acreditamos que há espaço para os preços da pecuária de corte evoluírem, principalmente em decorrência de uma diminuição da disponibilidade de carne. A expectativa é que os preços do bezerro, que já estão com altas importantes considerando os últimos anos, influencie positivamente os investimentos na cria e tire fêmeas do gancho. Com essas fêmeas sendo enviadas com menor intensidade para o abate, consequentemente, deve haver uma redução da oferta da produção de carne”, ressalta.
Nesta entrevista ao Noticiário Tortuga, o médico-veterinário Hyberville Neto, que é mestre em Administração de Organizações pela FEA-RP/USP e tem MBA em Gestão Financeira pela UNOPAR, analisa as perspectivas para a pecuária de corte, o comportamento dos grãos, os impactos do câmbio e da geopolítica, além de reforçar um ponto-chave para o produtor: aproveitar a fase positiva exige cautela, eficiência e, sobretudo, planejamento.
Noticiário Tortuga – Como o sr. avalia o cenário atual da pecuária brasileira?
Hyberville Neto – Considerando os preços de 2025, eles não estão em um patamar historicamente ruins. Estamos falando de um mercado que subiu bastante no ano passado e que, neste ano, tem trabalhado mais de lado. Acredito que a maior questão para 2025 tenha sido realmente uma certa frustração da maior parte das expectativas, que era de um mercado um pouco mais forte no segundo semestre. De toda forma, as exportações vêm em um ritmo forte. Começamos a ter uma redução de disponibilidade interna de carne bovina, o que é muito positivo pensando no mercado adiante. O que realmente segurou o mercado neste ano foi uma oferta de fêmeas que se manteve elevada, mas a expectativa é que não fique assim por muito tempo. Inclusive, em 2025, nós já esperávamos uma oferta um pouco mais calma de fêmeas para abate e isso surpreendeu. Mas a expectativa de que haja uma redução dessa disponibilidade de fêmeas continua, o que deve dar suporte para o mercado do boi gordo em médio prazo.
Noticiário Tortuga – Quais as perspectivas para o gado de corte e o mercado de grãos em 2026?
Hyberville Neto – Acreditamos que há espaço para os preços da pecuária de corte evoluírem, principalmente em decorrência de uma diminuição da disponibilidade de carne. A expectativa é que os preços do bezerro, que já estão com altas importantes considerando os últimos anos, influencie positivamente os investimentos na cria, tire fêmeas do gancho. Com essas fêmeas sendo enviadas com menor intensidade para o abate, consequentemente, deve haver uma redução da oferta da produção de carne. Como as exportações devem seguir positivas, produzindo um pouco menos e mantendo um ritmo forte, nossa expectativa é que haja menos carne para ser distribuída no mercado doméstico, a chamada disponibilidade interna.Temos muita turbulência do ponto de vista econômico, incertezas fiscais, incertezas políticas para o próximo ano, mas em relação à disponibilidade menor de carne bovina esperada, a nossa leitura é de que haja espaço para o mercado evoluir.
Pensando no mercado de grãos, vamos focar no cenário do milho, de produção forte para o próximo ano esperado pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Mas a demanda tem crescido em ritmo muito forte, principalmente para a produção de etanol de milho. Essa demanda elevada, somada à destinada à produção das diversas proteínas, com exportações indo muito bem nesses setores, mantém a nossa expectativa de que o mercado continue firme. Não esperamos preços de milho muito frouxos no próximo ano, mesmo diante das questões ligadas à oferta. Temos uma safra recorde nos Estados Unidos e um cenário ainda bastante incerto para a próxima safra no Brasil, que está no início, com a safrinha ainda por ser plantada e o desenvolvimento da primeira safra em andamento. Ainda assim, mesmo com produções crescentes em nível nacional e global, esperamos que o cenário seja de preços sustentados, tendo o mercado doméstico como principal responsável por essa dinâmica.
Noticiário Tortuga – Que fatores econômicos e geopolíticos podem influenciar o desempenho do setor no próximo ano?
Hyberville Neto – Acho que há duas variáveis indo em direções um pouco opostas quando falamos de pecuária. Temos o câmbio, que, devido às incertezas fiscal e política, pode trabalhar em patamares um pouco acima dos atuais, o que acaba pressionando a inflação e diminuindo o espaço para a queda da taxa de juros. Por outro lado, temos um cenário de diminuição das expectativas de inflação, e isso tem se refletido nas projeções para uma taxa de juros menor. Embora o câmbio não defina o cenário econômico doméstico, ele é um bom termômetro do que está acontecendo. Então, se o dólar estiver valorizado, isso ajuda as exportações, barateia a nossa carne e mantém competitividade lá fora, mesmo com o mercado em alta em reais, que é o que nós esperamos também. Agora e paralelamente, se o câmbio estiver um pouco mais contido devido a uma surpresa positiva do ponto de vista fiscal e econômico internamente, isso tira um pouco da força ou da colaboração das exportações. Então, ficamos sempre nesse binômio. Se o câmbio estiver ajudando, ele acaba compensando um pouco o cenário econômico mais adverso que nós temos no mercado doméstico. Não que o câmbio seja um indicador completo da situação econômica doméstica, e nem que toda a turbulência econômica seja transferida para o câmbio. Mas essa relação existe.
Vale lembrar que, no ano que vem, teremos eleições, que costumam trazer uma volatilidade adicional ao câmbio. E também tendem a fazer com que mais dinheiro circule na economia, com contratações temporárias, gastos eleitorais e a distribuição do fundo eleitoral ao longo das cadeias de fornecimento, por exemplo. Esse movimento acaba estimulando, em alguma medida, o consumo doméstico. No entanto, nossa expectativa de alta não está baseada em consumo ou em maior força econômica. Na nossa leitura, a evolução do mercado nos próximos anos vai se dar pela redução da oferta.
Noticiário Tortuga – Como o crescimento das exportações em 2025 impactou a oferta de carne no mercado interno brasileiro?
Hyberville Neto – As exportações de carne bovina ajudaram a enxugar o mercado que ainda trabalhou com oferta recorde em 2025. E as exportações, também em patamar recorde, mantiveram o nível da disponibilidade interna de carne bovina mais enxuto. E isso colaborou com essa sustentação do mercado que, como comentei anteriormente, não está exuberante, mas é um mercado que também trabalhou sem grandes quedas ao longo de 2025. O problema foi uma expectativa que estava mais otimista do que tem se confirmado. Mas o mercado em si trabalhou de maneira relativamente positiva, principalmente em decorrência das exportações que enxugaram o mercado doméstico, mesmo com essa oferta recorde de carne.
Noticiário Tortuga – Quais são as perspectivas para as exportações de carne bovina em 2026?
Hyberville Neto – Para os próximos anos, as expectativas seguem positivas. Temos uma demanda chinesa que, mesmo com todas as notícias que chegam sobre medidas que possam limitar um pouco as compras da carne bovina, do Brasil e de outros fornecedores, o país é um grande comprador e esse fato não deve mudar estruturalmente. Quanto aos Estados Unidos, o retorno das tarifas ao patamar de 26,4% para carne bovina exportada gera expectativa de termos espaço para o mercado norte-americano vir buscar mais carne aqui no Brasil. Isso já vinha ocorrendo mesmo com as tarifas em alta e, agora, com a retirada das tarifas, a perspectiva é que isso automaticamente gere volumes maiores.
Temos também o México, que abriu o mercado em 2023 e tem comprado mais. E vários outros países que vêm aumentando suas compras. Há, ainda, a possibilidade de abertura do mercado japonês para a carne brasileira. E todos esses pontos vão na direção de volumes consistentes, até mesmo crescentes para os próximos anos.
Noticiário Tortuga – Como o melhoramento genético e a nutrição de ponta podem influenciar a produtividade?
Hyberville Neto – Esperamos que a alta do ciclo pecuário aconteça daqui para frente. Já estamos em alta em comparação com o ano passado, mas, para entrar classicamente na fase de alta do ciclo pecuário, tem uma associação de fatores como preços, diminuição de oferta e redução da participação de fêmeas nos abates. Então, a expectativa é que a relação de troca com a reposição fique mais justa nos próximos anos.
Normalmente, nas fases de alta, nós temos um bezerro relativamente mais caro, e isso exige maior eficiência no uso dessa matéria-prima, que é a reposição. Um bezerro geneticamente superior e nutricionalmente bem trabalhado tende a responder bem e ajuda a diluir esse custo maior das arrobas de entrada. Quanto mais arrobas forem colocadas naquele animal, em menos tempo – o que passa por genética, nutrição e manejo -, isso é fundamental para a viabilidade daquele sistema. Ainda mais considerando um custo de oportunidade, ou seja, uma taxa de juros alta como nós ainda temos no Brasil. E mesmo com a expectativa de um início de redução em 2026, ela não ficará muito tímida. Deve continuar em patamares muito altos, o que exige eficiência em qualquer atividade econômica.
Noticiário Tortuga – A suplementação estratégica tende a se tornar ainda mais essencial diante dos desafios do clima e da disponibilidade de pasto?
Hyberville Neto – Como eu comentei, o melhor uso da matéria-prima, ou seja, das arrobas de reposição, passa por uma suplementação que supra os diferentes momentos de pastagem, dependendo do sistema, da sazonalidade da região e da oferta de pasto. Esse animal tem que produzir nas diferentes estações do ano, com o seu potencial, com as estratégias que estão sendo usadas, avaliando viabilidade, entre outros fatores. Mas esse animal não pode devolver o que ganhou nas águas durante o período seco. Acredito que esse seja um ponto unânime entre aqueles que trabalham na produção. E quando extrapolamos isso para custos, para resultados, também tem um efeito direto. Claro que sempre avaliando custos, sempre avaliando retorno, mas o animal perder peso no período da seca é algo que a pecuária brasileira não permite mais, em razão das margens mais justas nos últimos anos.
Noticiário Tortuga – Como o planejamento ajuda o pecuarista a atravessar melhor os períodos adversos do ciclo?
Hyberville Neto – Quando a gente fala de uma atividade com margens mais justas, como a pecuária tem se tornado nas últimas décadas, o esperado dentro do sistema tem que ser o mais próximo do realizado. Se o produtor tiver um produto que entregue o mais próximo possível do que foi estimado, isso gera mais assertividade no planejamento. E é fundamental, em qualquer atividade, aproximar-se do planejado. É importante para que o produtor possa se programar, fazer o seus cálculos de rentabilidade, de ponto de equilíbrio, ver o quanto pode pagar naquele boi magro, considerando o preço do boi gordo menos os custos de produção, o ganho esperado. São diferentes formas de ver a mesma conta em um confinamento, em uma recria intensiva. E quanto mais o produtor tiver confiança no desempenho que o animal irá entregar, mais assertividade ele vai ter no planejamento.
Noticiário Tortuga – Qual a principal mensagem para o pecuarista aproveitar o ciclo de alta, sem perder de vista os desafios em longo prazo?
Hyberville Neto – A principal mensagem que gostaria de deixar ao pecuarista neste momento de alta, por mais contraintuitiva que possa parecer, é lembrar que esse movimento não dura para sempre. Estamos no início de um ciclo de alta que, acreditamos, possa se estender até 2027 ou talvez 2028. Esse cenário é otimista e positivo para o setor como um todo. No entanto, em algum momento, o excesso de otimismo pode levar o produtor e o próprio setor a assumir riscos e fazer movimentos que normalmente não ocorreriam em um cenário de preços mais calmos.
Não é para o produtor não se animar com a fase de alta. É justamente para que ele se prepare para momentos um pouco mais adversos que vêm na sequência, como acontece em todo ciclo. Na fase de alta, é fundamental fazer caixa, organizar a casa e realizar os investimentos necessários para manter o potencial produtivo da fazenda. Dessa forma, quando a fase de baixa chegar mais adiante, o produtor terá recursos e estrutura para aproveitar as oportunidades, como a compra de arroba mais barata. Essas oportunidades da fase de baixa só estão disponíveis se o produtor estiver capitalizado. E essa capitalização é feita na fase de alta. Costumo dizer que quem tem caixa escolhe se está vendendo ou comprando; quem não tem, está sempre vendendo. É claro que isso é mais fácil de dizer do que de fazer no dia a dia, mas, se fosse para deixar uma sugestão, seria essa.


