Gado de corte em tempos de seca: estratégias e cenários para o segundo semestre

Com a intensificação dos desafios climáticos e geopolíticos, pecuaristas devem investir em planejamento nutricional, gestão eficiente e ferramentas digitais para proteger margens e manter a produtividade

A pecuária de corte brasileira iniciou 2025 com perspectivas muito promissoras, tanto no sistema a pasto quanto no confinamento. Após anos desafiadores, o setor voltou a respirar aliviado e redobrou as esperanças com o começo da virada de ciclo, devido a uma combinação favorável de fatores: custos mais equilibrados, recuperação nos preços da arroba, aumento nas exportações e demanda aquecida por carne de qualidade.

“Observamos uma forte tendência de elevação de preços pagos aos produtores, fruto da demanda aquecida puxada pela exportação e a oferta de animais com níveis similares aos de 2024. Isso refletiu no ânimo dos pecuaristas que sempre procuram formas de melhorar a produtividade para potencializar a remuneração do seu produto”, confirma João Victor Yamaguchi, Gerente de Marketing de Gado de Corte Latam da dsm-firmenich.

A sensação otimista influenciou a tomada de decisão dos confinadores que, em julho, iniciaram o segundo giro. “Entramos o ano muito bem de preços e o potencial de lucro propiciou uma taxa de ocupação maior. Houve a tradicional pressão do mês de maio, mas os grãos, em especial o milho, registraram valores muito interessantes”, explica Walter Patrizi, Gerente de Confinamento Latam da dsm-firmenich. Segundo ele, o momento atual continua propício ao confinamento, principalmente em razão da colheita do milho e do algodão a preços competitivos.

Mas como toda atividade econômica tem os seus riscos, existem desafios a serem superados. E o mais recente é o tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aos produtos brasileiros. “Vemos um movimento de queda na arroba em razão da sobretaxação, mas o Brasil encontrará outros mercados para sua carne”, pondera Patrizi.

Para o pesquisador do Cepea/ESALQ-USP, Thiago Carvalho, o pós-tarifa Trump muda de certa maneira o quadro em termos do preço recebível. Segundo ele, o panorama para o segundo giro estava muito positivo, dado o custo baixo do grão e o preço do boi magro competitivo, sinalizando o preço do boi gordo futuro vantajoso no segundo semestre. “É claro que todo o cenário de tarifa do governo norte-americano colocou uma pressão no mercado e há um arrefecimento dos preços do boi gordo. Por outro lado, é importante salientar que grande parte desses confinadores vêm fazendo travas de preço, trabalhando com contrato futuro, garantia de escala, uma parceria com a indústria”, pondera. Ou seja, para quem se planejou e se precaveu, o segundo giro deve ser positivo, amortecendo possíveis margens achatadas que possam surgir nas vendas de balcão.

Às incertezas econômicas – que seguem na esperança de um acordo menos prejudicial ao setor – , junta-se um fator já conhecido: o período das secas, que coincide com o segundo giro do confinamento e impõe uma série de desafios aos produtores em diversas regiões do país. Se, por um lado, a estiagem facilita a logística da alimentação — já que o tempo seco evita a formação de lama —, por outro, o calor excessivo e o acúmulo de poeira entre agosto e outubro trazem obstáculos significativos para o bem-estar animal e o desempenho produtivo.

Walter Patrizi cita o estresse térmico como o principal problema dessa fase. “O Índice de Conforto Térmico (ITH) atinge os maiores patamares nesse período. O calor, somado à redução das chuvas, leva os animais a consumirem menos ração, o que afeta diretamente o ganho de peso. Além disso, há uma maior depreciação da ração exposta ao sol “, analisa, pontuando que investimentos em infraestrutura ajudam a mitigar esses impactos: sombra para os animais, cobertura nos cochos e estratégias de manejo mais cuidadosas são essenciais para manter a produtividade.

João Yamaguchi lembra que, apesar de a estiagem ser um fenômeno recorrente, sua intensidade varia conforme o clima e a região. “A queda da precipitação volumétrica, a redução na duração dos dias e o declínio na temperatura média afetam diretamente a disponibilidade e a qualidade das pastagens.

Nesse cenário climático, Walter Patrizi e Thiago Carvalho afirmam que o confinamento, além de uma opção para terminar os animais, pode ser uma ferramenta estratégica para a época da seca. “Entre julho e novembro, há um aumento significativo no volume de gado confinado, exatamente por conta das limitações impostas pela estação. Como o segundo giro exige uma resposta mais rápida em termos de ganho de peso, intensificar a alimentação e acelerar o ciclo produtivo são alternativas que fazem diferença”, ressalta Thiago Carvalho.

Confinar o ano inteiro também é uma tática cada vez mais usada pelos pecuaristas para aumentar a produtividade e os lucros. Segundo Patrizi, quando o sistema começou a ser utilizado no Brasil, havia só um giro que iniciava após a colheita do milho safrinha. Com o passar do tempo, o produtor percebeu que poderia – e deveria – aproveitar melhor a estrutura na qual tinha investido. “Como comprovado pelo Censo realizado anualmente pela dsm-firmenich (veja mais informações na p. 20), o confinamento está crescendo no país e acopla com todo o sistema de produção a pasto”, observa, acrescentando que altas margens com baixo giro nem sempre representa um bom negócio. “É possível realizar de dois a três giros por ano, otimizando o uso da estrutura e melhorando o resultado financeiro”, afirma. E compara com a lógica dos supermercados: margens menores, mas alto giro e maior rentabilidade no acumulado.

NUTRIÇÃO E SUPLEMENTAÇÃO ESTRATÉGICA
No confinamento ou no pasto, a nutrição é uma ferramenta essencial para evitar perdas na produtividade durante a estiagem. Mas esse planejamento não deve ser feito apenas nesse momento delicado, e sim o ano inteiro.

Segundo João Yamaguchi, o principal objetivo desse preparo é corrigir as deficiências que as forragens apresentam no período seco. “Antes de pensarmos no protocolo nutricional via suplementação, é necessário garantir a oferta de forragem, seja via vedação do pasto e acúmulo de forragem vindo da época das águas ou via oferta de volumoso (silagem, feno e pré-secado, entre outros)”, explica. No entanto, ele adverte que muitos pecuaristas erram ao pensar nessas alternativas tardiamente, quando o pasto já perdeu parte do seu potencial produtivo. “Por isso, a oferta de volumoso para a seca do ano atual deve ser planejada e executada desde o ano anterior”, afirma. Com a base bem-feita, o próximo passo é projetar o plano de suplementação.

O tipo de suplemento, prossegue, varia de acordo com o objetivo de cada categoria do rebanho. “O primeiro ponto é a correção da deficiência proteica da forragem, tornando essencial o aporte via suplementos ureados, proteicos e/ou proteicoenergéticos. Para a categoria cujo objetivo é a manutenção de escore corporal, o suplemento ureado é sempre uma boa opção. Se for necessário ganho moderado, com ganhos adicionais frente ao suplemento mineral de até 250 g/dia, o suplemento proteico se torna fundamental para garantir esse desempenho. Já a escolha de um proteico-energético tem como foco suplementar categorias com o objetivo de acelerar o ganho de peso, aumentando o fornecimento via cocho (0,3 a 0,5% do peso vivo), resultando em ganhos adicionais frente ao suplemento mineral de até 400 g/dia”, esclarece.

Walter Patrizi acrescenta que o manejo nutricional, com um ajuste no horário de fornecimento, pode ser bem-vindo, tanto para os animais confinados como a pasto. “A primeira refeição oferecida ao amanhecer, o momento de maior produção de calor interno (incremento calórico) que ocorre seis horas após o consumo, vai coincidir com a hora mais quente do dia”, observa. Outra dica é o fornecimento de uma dieta que produza menor incremento calórico. “Reduzir a oferta de alimentos que fermentam no rúmen gera menor estresse térmico”, acrescenta. E cita como exemplo a troca de amido por gordura. Ou incluir co-produtos de destilaria de álcool (DDGs), que possuem menor fermentação proteica no rúmen.

A suplementação também é outra importante aliada para a estação seca. Produtos com minerais, como o cromo, que contribui para amenizar o estresse térmico, e o zinco, que ajuda a aumentar a imunidade e a saúde dos cascos, podem ser boas opções. “Há, ainda, as leveduras, as vitaminas antioxidantes, além de novas moléculas, como o HyD®, que fortalece a imunidade e tem se mostrado de grande ajuda para os animais enfrentarem melhor o calor, e o Mycofix®, que atua nas defesas para problemas das endotoxinas e de comidas expostas, principalmente no calor”, salienta Patrizi.

“Aliadas à genética bovina do boi magro, a nutrição e a suplementação são os pontos-chaves para o sucesso de um confinamento. O bom manejo e gestão da alimentação se tornam fundamentais nesse momento de incertezas de mercado e de necessidade de aumentar a produtividade”, complementa Thiago Carvalho.

TECNOLOGIA E GESTÃO NO PASTO E NO COCHO
Além dos cuidados com nutrição e manejo, a gestão financeira ganha protagonismo. “Não dá para deixar a compra dos insumos para a última hora”, alerta Thiago. “É fundamental garantir uma boa negociação de milho, boi magro e demais componentes da dieta, além de estratégias para travar preços de venda. A margem do pecuarista está diretamente ligada a uma boa gestão de custos e riscos, especialmente em um cenário de custos elevados e maior volatilidade.”

João Yamaguchi partilha da opinião. “A gestão de todo o processo tem papel fundamental para o sucesso produtivo e financeiro da fazenda. O controle de produção de forragem, a pesagem frequente dos animais, a administração do fluxo de caixa e todo o manejo diário dentro da porteira são essenciais para o levantamento de dados, a geração de indicadores e o principal: a tomada de decisão assertiva e sem atrasos”, sentencia.

Ao lado da gestão, Walter Patrizi destaca a importância de um time bem capacitado para atuar em todos os giros da fazenda. “Formar uma equipe estável é um dos principais desafios dentro processo produtivo. Colaboradores bem treinados permitem que a fazenda tenha processos sólidos. Toda vez que um lote não atinge o resultado esperado, é porque algum processo não aconteceu como planejado. No caso de imprevistos, uma equipe estável consegue se ajustar às mudanças rapidamente”, preconiza.

Em conjunto com as soluções nutricionais de ponta, Patrizi fala da relevância dos serviços oferecidos pela equipe da dsm-firmenich aos pecuaristas. Entre eles, estão o suporte à capacitação dos colaboradores da fazenda e o acompanhamento contínuo para embasar a tomada de decisões e garantir a entrega de resultados consistentes.

João Yamaguchi, por sua vez, ressalta o papel da tecnologia como aliada na gestão da propriedade, facilitando o controle, a coleta e a interpretação de dados de forma clara e objetiva. “O uso de ferramentas digitais, como o FarmTell Views, contribui para organizar a rotina da fazenda, que muitas vezes é negligenciada. Essa rotina inclui o controle do inventário do rebanho, o abastecimento e o consumo de suplemento, a gestão da qualidade da água e o monitoramento do índice de mortalidade, entre outros indicadores”, explica.

“Ao identificar que o consumo de suplemento ficou abaixo do esperado, é fundamental que o gestor analise as possíveis causas, como falhas no abastecimento, dificuldades de acesso, cochos em más condições ou necessidade de ajuste na formulação do produto. A resposta deve ser rápida, com ações corretivas imediatas, para evitar prejuízos no desempenho dos animais”, exemplifica, acrescentando que esse tipo de controle é essencial para assegurar que o planejamento esteja sendo cumprido. “Permite, ainda, intervenções pontuais e oportunas, aumentando a eficiência do manejo e impulsionando os resultados produtivos”, conclui Yamaguchi.

HORA DE AFINAR A ENGRENAGEM PARA UM SEGUNDO GIRO EFICIENTE E LUCRATIVO
Walter Patrizi observa uma mudança importante no comportamento da atividade em 2025: o confinamento está ocorrendo de forma mais constante ao longo de todo o ano, diferente do padrão observado em 2023 e 2024, quando houve maior concentração no segundo giro. Mesmo diante da seca e das incertezas econômicas, a expectativa é de que o confinamento mantenha-se em alta no segundo semestre.

Do ponto de vista técnico, João Yamaguchi ressalta a importância de manter ou até elevar o nível de suplementação em relação ao período das águas. “Se o pecuarista utilizou suplemento proteico-energético na estação chuvosa, o ideal é que a oferta na seca permaneça, evitando quedas bruscas de desempenho. Naturalmente, o perfil nutricional dos suplementos precisa ser ajustado para compensar as mudanças na base da alimentação, que passa a ser um pasto mais seco e com menor valor nutricional”, orienta.

Para o produtor que está decidindo entrar no confinamento neste segundo giro, Thiago Carvalho torna a recomendar atenção especial ao preço dos insumos e à qualidade dos animais de reposição. “Há pressão sobre o mercado do boi gordo, mas também uma oferta menor de bezerros e bois magros, o que deve persistir até o próximo ano. Por isso, é fundamental acompanhar os movimentos do mercado — tanto de commodities quanto de reposição — para proteger a margem e evitar surpresas negativas”, aponta, ao lado de uma boa gestão de risco. “Ferramentas, como o mercado futuro, travas de preço e até o chamado ‘seguro do boi’, podem fazer a diferença para preservar a rentabilidade do confinador no segundo giro de 2025.”

Sobre o atual ambiente de tarifas e incertezas, que tem afetado a cadeia da bovinocultura brasileira, ele lembra que os estoques globais de carne bovina devem atingir, em 2025, os menores níveis desde 2006, o que favorece o equilíbrio entre oferta e demanda e impulsiona os preços. “Ainda que em um primeiro momento parte da carne que iria para exportação — como no caso dos EUA — permaneça no mercado interno, a tendência é que novos mercados se abram e a procura pela carne brasileira aumente. No médio e longo prazo, o cenário é positivo”, crava Thiago Carvalho.

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