Fibra efetiva: a base invisível do sucesso no confinamento

Gabriel Santos Persiquini Cunha
Instagram: @gpersiquini
Consultor de Precision Farming da dsm-firmenich

Nos últimos anos, o Brasil vem passando por um processo de grande transformação no uso da terra. A agricultura tem crescido de forma acelerada, ocupando áreas que antes eram destinadas à pecuária extensiva. Esse cenário fez com que muitos pecuaristas buscassem alternativas mais intensivas de produção, como o confinamento de bovinos de corte.

O resultado é que o número de animais confinados no país não para de crescer. Em 2024, foram 7,96 milhões de cabeças, um recorde histórico e 11% a mais do que em 2023. Desde 2015, o confinamento já avançou cerca de 70%, e a expectativa é de que, em 2025, o Brasil chegue a 8,53 milhões de animais terminados nesse sistema. Hoje, os bovinos confinados já representam cerca de 20% dos abates nacionais. E o País se mantém como o maior exportador de carne bovina no mundo, representando 21% do volume de carne exportada.

Para atender a essa demanda, é necessária a prática de sistemas mais intensivos, como o confinamento, e a alteração no perfil das dietas formuladas nas propriedades. Nesse sentido, parte dos pecuaristas tem buscado alcançar maior eficiência produtiva com elevado uso do concentrado na formulação.

Com esse crescimento, surge um desafio importante: como manter a saúde ruminal e o bom desempenho dos animais quando usamos dietas mais concentradas e, muitas vezes, baseadas em subprodutos da agroindústria (bagaço de cana, caroço de algodão e casquinha de soja, entre outros)? É nesse ponto que entra a Fibra em Detergente Neutro fisicamente efetiva (FDNfe).

A metodologia do FDNfe, já consolidado na nutrição de ruminantes, ganha cada vez mais espaço nas discussões atuais, o que reforça a importância de aprofundarmos sua aplicação prática. Ele considera não só a quantidade de fibra presente nos alimentos, mas também o tamanho das partículas. Na prática, o FDNfe representa a parte da fibra que realmente faz diferença: estimula a ruminação, ajuda a manter o rúmen saudável e garante que o animal mastigue e produza saliva suficiente. Esse processo é fundamental para manter o pH ruminal estável e evitar distúrbios. Além disso, a fibra efetiva cria o ambiente ideal no rúmen para que os carboidratos não estruturais sejam degradados de forma equilibrada, garantindo a produção adequada de ácidos graxos voláteis, que são a principal fonte de energia dos bovinos.

Apesar de já ser usado por muitos nutricionistas, a aplicação de FDNfe no campo ainda é um desafio. Isso acontece principalmente por causa das limitações nas formas de mensuração. Em 1996, a Universidade Estadual da Pensilvânia lançou a primeira versão do Penn State Particle Separator (PSPS), um método simples para estimar o FDNfe, composto por duas peneiras de 19 e 8 mm. Vale ressaltar que também existe o conceito de fibra efetiva, relacionado à soma total da capacidade de um alimento em substituir a forragem, de modo que o percentual de gordura no leite seja realmente mantido (Figura 1).

Figura 1 – Ilustração da relação entre FDN, FDNfe e FDNe (adaptado de Mertens, 2002).

Em 2003, um novo modelo foi apresentado, adicionando uma terceira peneira de 1,18 mm para refinar o cálculo. O problema é que, em dietas com grande inclusão de grãos, boa parte do alimento fica retida nessa peneira. Mas são carboidratos não estruturais (grãos), rapidamente fermentados e de alta taxa de passagem. Para corrigir essa limitação, em 2013 os pesquisadores substituíram a peneira de 1,18 mm por outra de 4 mm. A justificativa foi que, embora algumas partículas retidas nesse tamanho também sejam rapidamente degradadas, elas desempenham papel importante no tamponamento do rúmen, ajudando a manter o ambiente mais estável. E estudos mais recentes confirmaram que as digestas omasais (conteúdo alimentar – a digesta – que se encontra dentro do omaso, que é o terceiro compartimento do estômago de animais ruminantes) são compostas de partículas com tamanho superior, outro motivo da mudança.

O conteúdo FDNfe de um alimento é calculado multiplicando a % de FDN analisado quimicamente pelo fator de efetividade física (fef) dessa fonte de fibra. Ou seja, a soma da quantidade de material retido na peneira de 19,8 e 4 mm, representada em %. Quando utilizamos a peneira para determinar o fator de efetividade, temos a porcentagem do material retido em cada peneira, em que podemos utilizar de comparação com os valores de referência criados pelos autores das peneiras (Tabela 1).

As recomendações variam. O NRC (1996; 2016) indica que dietas de terminação devem ter pelo menos 20% de FDNfe na matéria seca. Já em dietas mais energéticas, com ionóforos e manejo adequado de cocho, pode-se trabalhar com apenas 5 a 8%. Outros autores recomendam de 7 a 10% em dietas de alta energia e até 20% quando o objetivo é aproveitar ao máximo a forragem. No Brasil, estudos sugerem valores mínimos em torno de 15%, alcançáveis com cana-de-açúcar ou silagem de milho.

No Centro de Inovação Tortuga em Rio Brilhante (MS), foi realizado um experimento (trabalho em processo de publicação) que avaliou duas dietas, com volumoso e sem volumoso, com diferentes níveis de FDNfe (12,0% e 8,0%, respectivamente). Dentro das dietas trabalhadas, utilizou-se o ionóforo monensina e o novo conceito em nutrição, o Victus® Performace (complexo com CRINA®, Hy-D®, cromo e zinco orgânicos). O protocolo com dieta sem volumoso na terminação proporcionou o mesmo ganho médio diário (GMD) e peso final de carcaça. Contudo, melhorou a eficiência biológica, devido ao menor consumo e melhoria na composição do ganho. Mas são dietas mais arriscadas, principalmente nos primeiros dias na fase de adaptação. E quando avaliado o uso do conceito Victus® Performace, aumentou o consumo de matéria seca.

Quando levamos o conceito de FDNfe para a prática, a peneira de separação de partículas se torna uma grande aliada. Na foto (Foto 1), por exemplo, é possível observar o material processado e sua distribuição entre os diferentes tamanhos de partículas. Esse teste simples ajuda a verificar se a dieta está equilibrada em termos de fibra efetiva. Além disso, durante o processo de ensilagem nas fazendas, o uso da peneira é essencial para acompanhar a qualidade do material processado e já mensurar a FDNfe do material ensilado. Após a ensilagem, ela também serve para conferir se a FDNfe da dieta total realmente corresponde ao que foi formulado e está sendo fornecido aos animais.

Portanto, a avaliação da FDNfe deve fazer parte da rotina de qualquer sistema de confinamento. Não se trata apenas de números, mas de entender como a fibra atua na prática, garantindo equilíbrio entre desempenho e saúde ruminal.

Vale ressaltar que, dentro de um confinamento, temos quatro dietas diferentes: a que é formulada, a que é misturada no vagão, a que é efetivamente fornecida no cocho e, por fim, a que o animal realmente consome. Somente quando alinhamos essas quatro etapas conseguimos assegurar que a FDNfe planejada chegue de fato ao rúmen, evitando distúrbios digestivos e potencializando os ganhos.
Nesse contexto, a correta avaliação da fibra fisicamente efetiva, aliada a outros parâmetros, como mensuração da matéria seca dos alimentos e verificação da qualidade de mistura no vagão, entre outros aspectos do manejo nutricional, tornam-se ferramentas essenciais para transformar o confinamento em um sistema mais eficiente, seguro e rentável!

Leia também