Em 2023, oferta e demanda domésticas devem ter mais força na formação de preço

Thiago Bernardino de Carvalho
Pesquisador da Equipe de Pecuária do Cepea

Desde 2019, o desempenho das exportações brasileiras de carne bovina vem sendo um fator preponderante na formação de preços da cadeia nacional de pecuária de corte. Em 2023, novamente as vendas externas devem seguir influenciando os valores domésticos, mas a demanda interna e, sobretudo, a tendência de recuperação da oferta no campo tendem a ser importantes fundamentos para o comportamento do preço.

No caso das vendas externas, a China deve continuar sendo o maior destino da carne bovina brasileira ao longo de 2023, mas os esforços para recuperar a produção de suínos podem enfraquecer o intenso ritmo das compras internacionais verificado nos últimos anos. Diante disso, é primordial que o setor exportador nacional siga fortalecendo as relações com outros importantes destinos da carne, como Estados Unidos, Chile e Emirados Árabes Unidos. O câmbio elevado também tende a manter atrativas as vendas externas da proteína.

E, de fato, o ano de 2023 começou confirmando as perspectivas desenhadas pela cadeia pecuária nacional. Em janeiro, o volume de carne bovina in natura exportado pelo Brasil somou 160,1 mil toneladas, um recorde para o mês, superando o até então melhor início de ano, registrado em 2022, quando 140 mil toneladas da proteína foram embarcadas pelo País, segundo dados da Secex. Frente ao mês anterior (dezembro/22), o aumento na quantidade escoada é de 4,8%, e em relação a janeiro do ano passado, o avanço é de 13%.

Quanto à demanda interna, o novo cenário político-econômico pode elevar – ainda que inicialmente – o consumo da carne bovina, tendo em vista a possível redução no ritmo da inflação e os novos estímulos sociais. Outro fator que pode fortalecer a melhora no consumo doméstico é o preço da carne na ponta final. Isso porque o possível avanço na produção no campo tende a resultar em preço mais atrativo ao consumidor brasileiro. Nos primeiros dias de fevereiro, a carcaça casada do boi era negociada no mercado atacadista da Grande São Paulo na casa dos R$ 18/kg, depois de se manter acima dos R$ 19/kg desde meados de agosto de 2022.

No campo, a produção brasileira vinha mostrando sinais de recuperação nos primeiros três trimestres de 2022 – tanto em volume de animais abatidos quanto em quantidade de carne por cabeça (maior produtividade) –, cenário que pode ser mantido em 2023. A retenção de fêmeas em 2020 e em 2021 resultou em investimentos na produção de animais jovens que, por sua vez, começaram a entrar no mercado em 2022 e que devem continuar sendo disponibilizados em 2023.

E uma possível recuperação na oferta deve enfraquecer os valores de negociação da arroba, especialmente no primeiro semestre de 2023. Por outro lado, os custos de produção no campo seguem bastante elevados, com altos preços de adubos, diesel, nutrição e milho. Esse cenário pode desestimular pecuaristas e limitar o número de animais em confinamento.

CUSTOS – Por enquanto, o cenário que se desenha para 2023 é de incremento nos custos de produção, sobretudo por conta do dólar ainda alto, que mantém encarecidos os insumos importados, e do contexto externo, como a guerra na Ucrânia e a possibilidade de recessão global.

No que se refere à alimentação animal, mesmo com a possibilidade de colheita recorde de milho no Brasil neste ano, os patamares de preços do cereal podem seguir elevados, diante das incertezas das condições de oferta e de procura globais – na B3, os contratos futuros de milho operavam próximo de R$ 90/saca de 60 kg no começo de fevereiro. Além disso, o dólar alto deve favorecer as exportações do cereal – as exportações brasileiras de milho foram estimadas pela Companhia Nacional de Abastecimento – Conab (no relatório de fevereiro) em 47 milhões de toneladas, um recorde.

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