Em 2024, a pecuária brasileira registrou um desempenho histórico, com o abate de quase 46 milhões de bovinos, um crescimento de 9,5% em relação a 2023. Esse aumento refletiu diretamente na produção de carne bovina, que cresceu 10,5% no mesmo período. No mercado internacional, as exportações também bateram recorde, com um avanço de aproximadamente 26% em comparação ao ano anterior (APEX, 2025).
Esse cenário de expansão está diretamente relacionado à intensificação dos sistemas de produção brasileiros, especialmente os de terminação intensiva. Destaca-se o crescimento dos confinamentos, responsáveis pela terminação de 8,8 milhões de cabeças em 2024, o maior volume já registrado no país, representando 19,2% dos abates totais e um aumento de 9,54% em relação a 2023 (APEX, 2025).
O confinamento se consolidou como uma estratégia eficaz e lucrativa para a intensificação da produção, evidenciada tanto pelo crescimento das unidades quanto pela ampliação de sua capacidade produtiva. Esse avanço tem sido impulsionado, entre outros fatores, pela maior oferta de grãos e coprodutos agroindustriais, permitindo a formulação de dietas com alta densidade energética. Essas dietas não apenas elevam o desempenho zootécnico, como também otimizam a logística alimentar e contribuem para a eficiência do sistema como um todo.
Dentre as estratégias para o adensamento energético das dietas de confinamento, destacam-se o aprimoramento no processamento de grãos, especialmente o milho reidratado e floculado, a inclusão de gordura na dieta ou de alimentos naturalmente mais lipídicos, como o caroço de algodão e o DDGS, além do aumento na proporção de concentrados, com consequente redução do volumoso. Esse movimento é evidenciado pelo levantamento de Monsalve e Millen (2025), que mostrou que a inclusão média de volumosos nas dietas dos confinamentos brasileiros em 2023 foi de 15,72% na matéria seca (MS), representando uma redução de aproximadamente 45,41% em comparação ao levantamento de 2009, no qual a média era de 28,8% na MS (Millen et al., 2009).
Apesar de o aumento na inclusão de concentrados elevar o custo por tonelada da dieta, essa prática visa maximizar o ganho médio diário (GMD), melhorar a eficiência biológica e encurtar o ciclo de terminação, permitindo a produção de uma arroba mais barata e, consequentemente, proporcionando maior margem ao confinador. É fundamental que os custos e estratégias sejam analisados regional e periodicamente, considerando a disponibilidade de insumos e as variações de mercado. Em cenários como o observado em julho de 2025, quando a relação de troca entre o boi gordo (R$/@) e o milho (saca de 60 kg) atingiu 4,6 (Imagem 1), o aumento da participação do milho nas dietas se torna uma alternativa economicamente muito atrativa.

Além dos ganhos produtivos e econômicos diretos, outros benefícios operacionais e estratégicos são observados com a redução da inclusão de volumoso nas dietas de confinamento:
• Redução da área destinada ao cultivo de forragens.
• Possibilidade de redirecionar a área agrícola para outras finalidades produtivas.
• Redução dos custos operacionais.
• Aumento do número de animais confinados com o mesmo volume de volumoso.
• Simplificação das operações de manejo da dieta.
No entanto, a adoção dessa estratégia impõe desafios importantes, tanto no aspecto metabólico dos animais quanto na gestão operacional do confinamento, especialmente em relação ao fornecimento e à adaptação à nova dieta.
Do ponto de vista metabólico, a acidose ruminal, tanto clínica quanto subclínica, representa o principal ponto de atenção diante do aumento dos níveis de concentrado. Isso se deve à maior inclusão de carboidratos rapidamente fermentescíveis, especialmente o amido, associada à redução da fração fibrosa da dieta. Tal condição favorece a produção elevada de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) no rúmen, reduzindo o pH ruminal. Dependendo da intensidade e duração da queda do pH, instala-se um quadro de acidose, que compromete a integridade das papilas ruminais, reduz a absorção de AGCC, diminui a digestibilidade da dieta, prejudica o desempenho animal e aumenta a incidência de distúrbios secundários, como laminite e abscessos hepáticos.
Operacionalmente, é essencial a atenção ao processo de adaptação dos animais e à transição entre dietas, visto que as alterações nos padrões fermentativos ruminais podem ser expressivas. Outro ponto crítico é a inclusão de fibra fisicamente efetiva, com qualidade adequada, capaz de promover maior ruminação e salivação — fatores que contribuem para o tamponamento do ambiente ruminal.
Adicionalmente, destaca-se a importância do uso de aditivos moduladores da fermentação ruminal, que otimizam a eficiência da dieta e reduzem distúrbios metabólicos. Somase a isso o investimento em controle de cocho e capacitação da equipe, fundamentais para evitar flutuações bruscas na ingestão de carboidratos e garantir o sucesso da estratégia.
CONCLUSÃO
A elevação da densidade energética nas dietas de confinamento representa uma ferramenta estratégica para a intensificação da pecuária de corte, permitindo ganhos expressivos em desempenho animal, eficiência operacional e rentabilidade. A substituição parcial do volumoso por concentrados, quando bem planejada e executada, reduz custos logísticos, otimiza o uso da área e possibilita o confinamento de um maior número de animais.
Entretanto, os benefícios dessa abordagem só se concretizam quando acompanhados de uma gestão técnica criteriosa, especialmente em relação à formulação das dietas, ao fornecimento adequado de fibra efetiva e à prevenção de distúrbios metabólicos, como a acidose ruminal. O sucesso da estratégia também depende da adoção de protocolos de adaptação eficientes, do uso de aditivos adequados e de equipes bem treinadas no manejo nutricional e sanitário.
REFERÊNCIAS
APEX. Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos. Relatório Anual de Comércio Exterior da Pecuária – 2025. Brasília: APEX Brasil, 2025.
MILLEN, D. D.; PACHECO, R. D. L.; ARRIGONI, M. D. B.; SALLES, M. S. V. Survey of the feeding management practices in feedlot beef cattle systems in Brazil. Journal of Animal Science, v. 87, n. 11, p. 3800-3809, 2009.
MONSALVE, D. V.; MILLEN, D. D. Atualização dos sistemas de alimentação e manejo em confinamentos no Brasil: levantamento nacional 2023. São Paulo: Universidade Estadual Paulista (UNESP), 2025. [Relatório técnico].