Desmama menos estressante com uso do cromo

Dr. Enrico Lippi Ortolani
Prof. Titular do Depto. de Clínica Médica da Fac. Med. Veterinária e Zootecnia/USP;
Colunista da Revista DBO e Consultor Veterinário do Programa Globo Rural

Os bovinos podem ter doenças inesperadas e aquelas mais prováveis de acontecer em certas fases críticas da vida, como nas primeiras semanas após o nascimento, na desmama, na castração e após transporte longo, na entrada no confinamento, no parto e no decorrer do envelhecimento. O ponto-chave em sanidade é a prevenção das doenças, em especial quanto às doenças previsíveis. Diz o velho ditado: “Prevenir é melhor que remediar”.

A desmama gera um grande estresse físico e emocional, que pode debilitar a saúde da bezerrada. Os efeitos maléficos do estresse podem se prolongar até 30 dias após o término da desmama. Têm-se relatado mortes, neste período, em até 2% dos desmamados, por pneumonia, verminose ou outras afecções.

Bezerros desmamados subitamente ficam sem a mãe e o leite. São manejados e, muitas vezes, vacinados e colocados em um ambiente estranho junto com animais de outros grupos sociais. Desde os primórdios, os bovinos se acostumaram a formar e a viver tranquilamente em agrupamentos sociais de não mais de 30 indivíduos, mesmo se estiverem convivendo em grandes lotes.

Todas essas mudanças, principalmente se a desmama for súbita e se os animais permanecerem no curral sem ver a mãe, geram respostas abruptas no desmamado, que o levam a um quadro de estresse. De forma geral, o estresse é mais intenso em fêmeas do que em machos, em animais mais jovens e mais leves e em zebuínos em relação aos taurinos. Os sintomas mais evidentes do estresse são os mugidos constantes, a inquietude, a falta de apetite, diminuindo em até 50% a ingestão de alimentos, os movimentos mais constantes no curral e o isolamento do grupo. Você já deve ter visto. Uma tristeza!

O estresse é o pontapé inicial de uma série de reações orgânicas que acontecem em cascata e que trazem enormes prejuízos em longo prazo. Dor, angústia e isolamento no meio da multidão desencadeiam um forte estímulo no centro do cérebro (eixo hipotalâmico/hipofisário). Deste local são liberados uma série de hormônios que favorecem reações imediatas e mais tardias. Nas imediatas, essas substâncias estimulam a produção de adrenalina e companhia bela, que fazem o coração bater mais forte, aumentam a produção de glicose, para gerar energia, tornam o animal mais alerta e assustado, aumentando a irrigação de sangue nos músculos e no cérebro, como se preparasse o bezerro para ter coragem e fugir do local

Algumas horas depois, o bovino estressado começa a liberar outro hormônio: um glicocorticoide, mais conhecido como cortisol. Em pequenas doses, tanto o cortisol como a adrenalina são bons, mas se forem liberados continuamente, por dias e semanas, como ocorre na desmama abrupta, a história é outra.

O cortisol atua em várias frentes. Como o animal tem redução do apetite, esse hormônio mobiliza a proteína muscular e a gordura estocadas para serem convertidas mais eficientemente em energia. Assim, as reservas e a musculatura obtidas a duras penas durante a amamentação vão sendo consumidas, reduzindo o peso corporal.

Outro efeito em longo prazo, tanto do cortisol como da adrenalina, é a diminuição das respostas inflamatórias, necessárias para o combate, por exemplo, de uma infecção. Assim, as células de primeiro ataque em uma infecção, chamada neutrófilos, diminuem sua capacidade de engolir bactérias invasoras e de tentar matá-las. Certas linhagens de linfócitos, presentes no sangue e responsáveis por parte da produção de anticorpos, passam a diminuir seu número, caindo por tabela a produção dessas defesas.

Tudo isso faz com que os animais fiquem mais propensos às infecções, sendo a mais importante a pneumonia, que ocorre dentro dos primeiros 10 dias da desmama, e as verminoses, que atingem o animal nos próximos dois meses após a desmama.

Finalmente, outro efeito maléfico do estresse prolongado é a redução dos estoques de certos minerais e vitaminas importantes. Com destaque, cita-se o cromo (Cr). Sabia-se que seres humanos submetidos ao estresse prolongado eliminavam uma quantidade enorme de Cr pela urina. Pela primeira vez, comprovamos em veterinária que idêntico fenômeno ocorria em bezerros desmamados: quanto mais estressado e maior a concentração de cortisol no sangue, mais elevada era essa eliminação de Cr pela urina. Caso o animal tenha um quadro infeccioso, isso complica o meio de campo, pois este provocará também a perda de cobre, zinco e vitamina B12.

Mas a pergunta que não quer calar é: Como combater e reduzir ao máximo o estresse na desmama? Sem dúvida, o manejo mais tranquilo com a bezerrada é essencial. A lida deve ser gentil e sem atropelos, tentando montar lotes de bezerros do mesmo agrupamento. Nem pensar no uso de cachorros para acuá-los, nem de vacinação e vermifugação nos primeiros dias do processo, optando-se por estas práticas nos 15 dias que antecedem a desmama. Mas, além destas medidas, outras podem diminuir os efeitos negativos dos hormônios do estresse. Uma delas é a suplementação
antecipada com Cr. Vamos entender melhor como funciona.

Até o final da década de 1950, o cromo só era lembrado como uma substância tóxica. Porém, demonstrou-se que o Cr participava de uma molécula capaz de aumentar a ação da insulina, hormônio que atua na passagem da glicose do sangue para as células. Chamaram essa molécula de fator de tolerância à glicose, presente no homem e nos animais domésticos. Assim, o Cr pode ser utilizado no tratamento auxiliar de um certo tipo de diabetes.

Além disso, verificou-se que o cromo podia estimular a formação de proteína, aumentando a musculatura; produzir o colesterol bom, baixar triglicérides e favorecer, em certas situações, a produção de anticorpos que atuam contra agentes infecciosos, reduzindo a frequência de doenças durante o período da desmama.

Mas, o ponto central da atuação do Cr na desmama é na redução do estresse. Por mecanismos não completamente entendidos ainda, ele reduz a produção de cortisol, diminuindo seus efeitos maléficos. Para entender melhor esse processo, orientei um trabalho de mestrado em uma grande fazenda do Pará (Souza et al. 2014, Souza et al. 2020). Lá, foram desmamados 150 bezerros (74 machos e 76 fêmeas) Nelore puros ou meio-sangue com Angus ou Guzerá. Sessenta dias antes da desmama, as duplas vacabezerro foram sorteadas em dois lotes semelhantes. Todos os bezerros tiveram acesso a sete partes de mistura fubá e farelo de soja, acrescida de três partes de suplemento mineral em cocho creep-feeding, para um consumo de 200 g da mistura/animal/dia. O mesmo sal também foi oferecido no decorrer de 60 dias após a desmama. Tudo era igual, só que, em um dos lotes, foi adicionado 30 miligramas de Cr orgânico (carboaminofosfoquelato) / kg de  suplemento. Cada animal ingeria em torno de 1,7 mg/Cr por dia, o dobro do recomendado pelas tabelas de nutrição.

A desmama foi feita em um grande curral, com os animais separados em dois lotes, permanecendo neste local por dois dias. No segundo dia, no pico do estresse, foi realizado um teste dentro da balança para avaliar a reatividade da bezerrada, classificando-os como mansos ou bravos. Após a desmama, os animais foram mantidos em piquetes de Brachiaria brizantha.

Os resultados foram muito animadores. O ganho de peso antes da desmama e no decorrer dos 120 dias experimentais foi, em média, 6,5 kg a favor do grupo Cr (Gráfico 1). No teste do estresse, constatou-se que nos “cromados” apenas 8% estavam nervosinhos, contra 32% no outro lote. A calmaria ocorreu tanto em fêmeas como machos. Em média, o cortisol no sangue era 20% maior no grupo sem Cr (Gráfico 2). O cromo eliminado na urina foi mais baixo no grupo Cr, em especial nos animais mais mansos. Embora o experimento não tivesse esse propósito, constatou-se que os animais do grupo sem Cr tiveram a liberação no sangue de maior quantidade de proteínas infecciosas, indicativas de que estiveram mais sujeitos à infecção.

Repeti o mesmo experimento em 60 bezerros Nelore, só que estes permaneceram no curral por 14 dias, recebendo capim à vontade e 1kg de sal proteinado por cabeça. Os resultados se repetiram. O peso ao término desses 14 dias foi 10 kg superior nos “cromados”, que também ficaram mais tranquilos (só 10% bravos) que os sem cromo (40%). O consumo de alimentos no curral foi em média 25% superior no grupo suplementado com Cr. Além disso, foi necessário tratar três animais do grupo sem cromo por pneumonia (Comunicação pessoal).

ÚLTIMAS CONSIDERAÇÕES
Nossos capins são relativamente ricos em Cr, porém, não suficientes para suprir as necessidades frente às situações de estresse. Para enfrentar essa crise previsível, deve-se suplementar o Cr com antecedência. O uso do Cr não traz benefícios palpáveis em condições normais de saúde.

Apenas o cromo quelatado (ligado a certos aminoácidos e proteínas), por ser mais absorvido e não ter risco de toxidez, é que tem ação antiestressante, não tendo efeito quando empregado em forma inorgânica. Estamos conversados?

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Sousa, I. K., Sousa, R. S., Mori, C. S., Morini, A. C., Neves, K. A., Minervino, A. H., & Ortolani, E. L. (2020). Influence of organic chromium supplementation on the performance of beef calves undergoing weaning-related stress. Pesquisa Veterinária Brasileira, 40(2), 97-101.
Souza, I.K, (2014). Influência da suplementação com cromo orgânico no desempenho de bezerros de corte submetidos a desmama (Dissertação de Mestrado).

SUPLEMENTAÇÃO COM CROMO: FERRAMENTA PARA AUMENTAR O RETORNO ECONÔMICO EM FAZENDAS DE CRIA

Victor Valério de Carvalho
Supervisor de Bovinos de Corte DSM

Em 2020, as cotações da arroba de bezerro, o principal ativo da atividade de cria, atingiu patamares históricos, situando-se em médias acima de R$ 360,00 por arroba, ou seja, mais de R$ 12,00 por quilo de peso vivo de bezerro desmama (Scot Consultoria). Logo, estamos em uma época muito oportuna para os pecuaristas de cria investirem em tecnologias que aumentem a lucratividade da operação.

Considerando os dados apresentados pelo professor Ortonali, referentes ao trabalho de Souza et al. (2020), a suplementação com carbo-amino-fosfoquelato de cromo (Cromo Tortuga) para bezerros de corte, por 120 dias no período de transição da desmama, aumentou o peso dos bezerros em 6,5 kg.

Dessa forma, levando-se em conta o investimento para a inclusão do Cromo Tortuga no suplemento mineral proteico utilizado, e o período em que foi suplementado, observamos um resultado financeiro muito interessante:
• Aumento de R$ 72,00 no LUCRO por bezerro;
• E, consequentemente, aumento da RENTABILIDADE da operação em 13%.

Portanto, a utilização de suplementos contendo cromo é uma estratégia para aumentar o desempenho zootécnico e econômico da fase de cria, além de amenizar o estresse dos animais e melhorar a segurança e o bem-estar dos colaboradores.

A Tortuga®, uma marca DSM, possui uma linha de suplementos minerais, proteico e proteico-energéticos, e de núcleos para mistura contendo Cromo Tortuga em ótima dosagem, que pode também melhorar os resultados das outras categorias de animais nas fazendas, seja na recria ou na terminação, além do desempenho reprodutivo das matrizes.

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